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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos [komentarista@uol.com.br]



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O Komentarista
 

comentários de filmes



Políticas (dois filmes)

 

Poster russo de Soy Cuba 

Tive, há alguns dias atrás, a chance única de ver dois filmes fenomenais num curto espaço de tempo. Estava esperando há muito para vê-los, e aluguei os dois DVDs. Por causa disso, uma casualidade, achei interessante comentar os dois filmes juntos, pois creio que podemos pensar em ligações entre ambos num nível além do prazer que tive em assisti-los próximos um do outro. O primeiro é Eu Sou Cuba (Mikhail Kalatozov, URSS/Cuba, 1964, 140 min). O segundo é Videodrome, (David Cronenberg, EUA, 1983, 81 min.) Ligações em termos de serem dois filmes políticos, mas em diferentes sentidos.

Assistir a Eu Sou Cuba foi como uma revelação. Sempre tive curiosidade a respeito de filmes políticos, e a maioria dos filmes políticos que vi eram de diretores ocidentais idealizando uma revolução que nunca aconteceu. De Glauber a Godard, filmes morais e bastante teóricos/metafóricos sempre me fascinaram. Essa possibilidade da revolução, o idealismo e o otimismo com o homem e a sociedade, essa vontade de promover mudanças que trariam, sim, um mundo melhor e mais justo. Nos tempos pós-petistas em que vivemos, somos obrigados a carregar uma dose saudável de cinismo ao encarar construções de sentido como essas. Ainda assim, a beleza e a poesia desses filmes, a meu ver, permanecem inspiradoras.

Eu Sou Cuba é uma obra de arte inquestionável, pela força da sua visualidade, pela maestria da sua técnica, pela sua poesia. Jamais vi nada tão interessante que, conjugando o imaginário cubano, uma certa lamentação a respeito da condição subdesenvolvida do país, conseguisse falar que a revolução aconteceu, sim. O filme é maniqueísta, e fala com a autoridade de quem tem a superioridade moral dos justos e dos corretos. Mas a poesia dos textos, falados em espanhol e ditos novamente em russo, me parece quase universal, nos sentimentos de tristeza esperançosa que eles exprimem. Essa vontade incessante de acertar, de melhorar a vida. O filme termina antes de Havana ser tomada, e fica-se com aquela evocação de um evento magistral, gigantesco, que não vemos de fato. A revolução hoje tornou-se uma ditadura pobre e agonizante, talvez repleta dos pecados denunciados nesse filme: prostituição, dominação norte-americana, colonização cultural. Mas é incrível imaginar como a rivalidade entre a União Soviética e os Estados Unidos, causadora de milhões de mortes, espremeu pura beleza de um povo localizado em ponto tão estratégico. É um filme que lembra Terra em Transe; mas é como se Glauber tivesse ido a Cuba, tomado anabolizantes e treinado incessantemente para uma competição internacional. Não desmerecendo Glauber, mas parece que há uma escola na qual ele pode talvez ser inserido, deixo isso para os especialistas.

Cronenberg e James Woods

E falando em filmes políticos, tema que adoro, comento Videodrome nesse registro também. Nesse que é talvez um dos melhores e mais poderosos de seus filmes, Cronenberg constrói uma narrativa a respeito da "nova carne", fruto de uma conjugação entre seres humanos e a televisão, que seria quase que a sublimação do corpo, transformado em dados. Se eu fosse comentar o filme seria uma tese, e aliás o filme trata de tudo que gastei 4 anos estudando. O interessante é pensar, de forma especulativa como cabe nesse espaço, em Cronenberg como diretor político. Não no sentido que faz de Glauber ou Kalatozov políticos, mas num sentido diverso, de militar por estéticas diversas, por novas condições do humano diferentes da que vivemos. Em vários filmes o diretor aborda a política como subjacente aos fenômenos tecnológicos em pauta em seus filmes, conseguindo agregar numa unidade quase tudo que me dá tesão intelectualmente. O valor profético de Cronenberg, em franco "comeback", ainda está por ser explorado. Essa dificuldade acontece por que simplesmente nossas tecnologias ainda não fazem, mas estão em vias de realizar as mais insanas fantasias de artistas como Cronenberg. Termino com um trecho de uma ótima e curta resenha sobre Videodrome, encontrada na Internet. Publicada originalmente em 1983, quando do lançamento do filme, foi reescrita e atualizada para o lançamento do DVD:

In Videodrome, Cronenberg riskily goes one step beyond in identifying power structures that are, essentially, invisible. While exalting the awesome dynamics of the body—its sexual energy, its capacity for the extrasensory, its suggestibility—Cronenberg implies that the body is a transient state between individual existence and the creation of a "new flesh" in which the television screen is, literally, the retina of the mind’s eye. In the trancelike, if confounding, universe of Videodrome, the only way to resist eradication is to transform oneself into pure electronic energy. Understand that Videodrome was released sixteen years prior to The Matrix. (Make Mine Cronenberg, de Carrie Rickey, publicado originalmente no Village Voice, janeiro de 1983. Para ler o texto completo, clique em http://www.criterionco.com/asp/release.asp?id=248&eid=371§ion=essay&page=1



Escrito por Komentarista às 03h11
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Ando meio sem inspiração para escrever. Acho que é cansaço intelectual; ando pensando demais e meu corpo às vezes não agüenta. Mas o show precisa continuar, assim como o blog, então escrevo algumas linhas sobre os dois excelentes filmes que assisti hoje, retornando às sessões duplas Comodoro no Cinesesc, SP.

            O primeiro foi Cães Raivosos (Cani Arrabbiati, Itália, 1974, 96 min.), dirigido por Mario Bava. A história é bem simples: um grupo de bandidos, depois de um assalto, seqüestra um carro e levam, além de uma mulher, o motorista e seu filho como reféns. Segundo a sinopse, esse foi o último filme de Mario Bava, que não sobreviveu para ver seu filme montado. Os negativos só foram reencontrados em 1998, quando o filme foi terminado, sob supervisão de seu filho, Lamberto Bava. Além da fotografia belíssima e da forma maravilhosa pela qual o filme é montado, levando a um ritmo excelente no desenrolar dos fatos (em conjunto com a música), um outro aspecto me chamou muito a atenção. Os personagens são maravilhosamente complexos, e os conflitos entre eles seguram a trama, que se desenrola basicamente no interior do automóvel seqüestrado. O personagem de Blade, o que comandava a faca, me pareceu o mais complexo e interessante: uma pessoa emocionalmente frágil, desequilibrada quase, que tinha no seu amigo 32 (esse era seu apelido) uma fonte de apoio e amor. Quando ele mata sua primeira vítima, vemos claramente que ele não o fez de propósito, e que não lhe fez bem. Não que ele seja bonzinho; algumas cenas mais tarde, vemos que ele é sim capaz de matar a sangue frio. Mas não há o prazer em matar, como outros exibem. E ele é capaz de, ao roubar uvas, pensar que as uvas silvestres são melhores que uvas “da cidade”. Pensei num menino do interior, traumatizado com muita coisa, tentando se segurar em pé enquanto trilha esse caminho da violência. Enfim, me deu vontade de escrever um conto explorando aquele personagem em particular (quem sabe num futuro mais calmo).

            O segundo filme, Tetsuo, O Homem de Ferro (Tetsuo, Japão, 1988, 96 min.), do diretor Shinya Tsukamoto é quase um delírio sem roteiro definido. Vale pelo gozo da visualidade bizarra e inovadora do filme, que gira em torno de um tema bastante interessante, as relações/misturas/conflitos entre carne e metal. Esse mote aparece resumido numa cena fundamental logo no início: um homem aparece cortando profundamente a sua perna com uma faca, expondo a carne. Em seguida, ele insere nesse corte um pedaço de metal, enfaixando a ferida em seguida. Quando o homem desenrola o curativo ensangüentado, vemos que ele apodreceu: vermes aparecem num close perturbador e rápido. Aliás, o filme tem um ritmo veloz (tudo ao som de uma trilha ensurdecedora e nervosa) que não diminui até o fim do filme. Alguns temas aparecem em dois “movimentos” bastante distintos, ambos marcados pelo conflito entre duas entidades. Primeiro vemos um homem e uma mulher, o primeiro se tornando paulatinamente uma criatura de metal, metamorfose essa marcada por uma sensação de putrefação e decadência, degeneração. A mulher, a princípio não muito abalada com aquilo, acaba se chocando e tentando matar essa criatura, tornando-se vítima dela. Nas cenas aparecem temas interessantes como ansiedades sexuais (destaco a figura marcante da mulher fálica) e uma paranóia gigantesca. Essa paranóia marca toda essa primeira parte, e consegue ser mostrada visualmente (e não explicada ou falada por ninguém) de forma interessantíssima. Num segundo “movimento” vemos uma luta entre um homem de metal e uma outra criatura (que poderia ser a mulher transformada), que remete a filmes de monstros e aos seriados como Ultraman. Pensei também no desenho fundamental Akira (que possui, como lembrou Mariana, um protagonista chamado Tetsuo também). Essa divisão é puramente analítica, e o filme na verdade não se pretende um conjunto de dois movimentos. Penso que ansiedades em torno da tecnologia são sugeridas, tanto nos corpos como na cidade que circunda a todos (canos, tubos, trens, carros, lataria). Referências visuais as mais diversas são liquidificadas num emaranhado bizarro, mas muito interessante.



Escrito por Komentarista às 03h35
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The Cameraman (Buster Keaton, 1928)

[NOTA -  01/08/2005: Descobri hoje (e parece que foi publicado hoje mesmo) um texto na revista Trópico que faz o mesmo percurso analítico que sugeri no post, só que em maior profundidade. Até a ilustração é a mesma... Comento isso aqui pois o texto que segue foi escrito antes de eu tomar conhecimento desse artigo. o link é: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2625,1.shl]

Esse post serve mais para marcar a oportunidade que tive de ver o filme The Cameraman, de Buster Keaton, do que para fazer qualquer análise mais profunda. Há temas que me empolgam, ou nos quais sinto um mínimo de segurança conceitual para publicar comentários mais elaborados. Ao mesmo tempo, seria irresponsável deixar essa oportunidade em branco. O filme, de 1928, me lembrou muito um “quê” de Woody Allen: o underdog, que tenta vencer na grande cidade, que tenta conquistar a garota mas se atrapalha todo. Se bem que em Keaton, não há uma certa celebração da neurose urbana, e sim um típico roteiro romântico. Extremamente atual, a forma de contar a história de Keaton foi me seduzindo ao longo do filme, pois confesso que fui ver mais como pesquisador do que como espectador. “Pesquisador” no sentido de que a possibilidade de ver um filme de Keaton, no cinema (e foi o meu primeiro), aguçou meus sentidos. E fiquei imaginando em como comparar esse filme com outros do mesmo período, que me marcaram quando os vi, especialmente o Homem com uma câmera de Dziga Vertov (1929). Tantos temas poderiam ser comentados aqui em relação a esse filme de Keaton: a oportunidade de vermos uma cidade dos anos 1920, a engraçada comparação entre o aparato tecnológico daquela época com o de hoje, as formas que o cinegrafista atua naquela época em um grande jornal (pois o personagem principal do filme, Buster, procura emprego num grande jornal tentando atuar como cinegrafista), etc... Há também uma problemática importante: as formas que o aparato visual do cinema, ou a forma nova de ver o mundo possibilitada pelo cinema, muda as nossas relações com esse mesmo mundo. Talvez aí haja uma interseção poderosa entre meus interesses de cientista social e as pesquisas da área de cinema propriamente. O filme de Keaton começa com uma celebração do heroísmo dos cinegrafistas que trazem a nós a realidade de guerras, por exemplo. Toda a ação do filme, por sua vez, gira em torno de um aspirante a cinegrafista, e podemos comparar as formas de se fazer jornalismo (no sentido de trazer ao público a realidade via uma mediação tecnológica) nos anos 1920 com a nossa própria, de emergência das tecnologias digitais e da onipresença da televisão. Não se trata, obviamente, de simplesmente mostrar o mundo: dizer isso seria comprar o discurso que o jornalismo e suas estruturas de poder constrói sobre si mesmo, para se legitimar. Trata-se, e aí a questão do cinema se torna muito atraente para mim, de construir um novo mundo, de alterar o mundo a partir dessas tecnologias. Daí a comparação com Dziga Vertov, e com toda uma linha de cineastas que me interessam profundamente. Muitos filmes, assim como The Cameraman, tocam nessa questão de forma direta ou indireta, como tema central ou como parte da trama. Destaco aqui o cada vez mais indispensável para mim Cannibal Holocaust (recuperando um comentário antigo desse blog).



Escrito por Komentarista às 17h14
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Para cinéfilos amantes de Kieslowisk

Mostra do cinema de Kieslowski no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo [http://www.bb.com.br/cultura]

Programação:

Agosto Dia 23,

terça: · 14h A Liberdade É Azul (100’) ·

16h A Igualdade É Branca (100’) ·

18h A Fraternidade É Vermelha (100’) ·

20h Debate entre a jornalista Neusa Barbosa (CineWeb) e a pesquisadora Andréa França (PUC-RJ) e o público

Dia 24, quarta ·

13h A Cicatriz (105’) ·

15h O Amador (110’) ·

17h10 O Acaso (120’)

Dia 25, quinta ·

14h A Dupla Vida de Veronique (90’) ·

16h A Liberdade É Azul (100’) ·

18h A Igualdade É Branca (100’) ·

20h A Fraternidade É Vermelha (100’)

Dia 26, sexta ·

14h A Fraternidade É Vermelha (100’) ·

16h Sem Fim (110’) ·

18h10 O Acaso (120’) ·

20h30 A Igualdade É Branca (100’)

Dia 27, sábado ·

12h A Liberdade É Azul (100’) ·

14h A Cicatriz (105’) ·

16h05 O Amador (110’) ·

18h15 Sem Fim (110’) ·

20h25 A Dupla Vida de Veronique (90’)

Dia 28, domingo ·

14h Sem Fim (110’) ·

16h10 O Acaso (120’) ·

18h30 O Amador (110’) ·

20h40 A Cicatriz (105’)

Dia 30, terça ·

14h A Dupla Vida de Veronique (90’) ·

16h Não Matarás (85’) ·

18h Não Amarás (85’) ·

20h Debate da pesquisadora Érika Savernini (UFMG) com o público

Dia 31, quarta ·

14h Decálogo Um e Dois (110’) ·

16h10 Decálogo Três e Quatro (110’) ·

18h20 Decálogo Sete e Oito (110’) ·

20h30 Decálogo Nove e Dez (110’)

Setembro Dia 1º, quinta ·

14h Não Amarás (85’) ·

15h50 Decálogo Um e Dois (110’) ·

18h Decálogo Três e Quatro (110’) ·

20h10 Decálogo Cinco e Seis (110’)

Dia 2, sexta ·

14h Não Matarás (85’) ·

15h50 Decálogo Cinco e Seis (110’) ·

18h Decálogo Nove e Dez (110’) ·

20h10 Decálogo Sete e Oito (110’)

Dia 3, sábado ·

14h Decálogo Nove e Dez (110’) ·

16h10 Decálogo Um e Dois (110’) ·

18h20 Decálogo Sete e Oito (110’) ·

20h30 Decálogo Três e Quatro (110’)

Dia 4, domingo ·

14h Decálogo Cinco (55’) ·

15h15 Não Matarás (85’) ·

17h Decálogo Seis (55’) ·

18h15 Não Amarás (85’)

Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo Rua Álvares Penteado, 112 — Centro — São Paulo — SP — Tel: (11) 3113-3651 — http://www.bb.com.br/cultura— Entrada: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia)



Escrito por Komentarista às 17h58
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Comento o último filme de Glauber Rocha que tive o privilégio de assistir quando da mostra no CCBB em São Paulo “O Cinema segundo Glauber e Pasolini”, que traçou um paralelo interessante entre os dois diretores. Não pude ver quase nada, e não vi nenhum do Pasolini desta vez, mas pude ver mais dois filmes de Glauber que não conhecia e ter uma visão mais completa dessa obra única na nossa cultura. E quando vi esse último, O Leão de Sete Cabeças, (título original: Der Leone Have Sept Cabeças) tive a certeza de que estava diante de uma verdadeira obra-prima. Não somente como uma obra isolada, mas dentro de um diálogo entre os cineastas da Nouvelle Vague, especialmente se pensarmos em Godard. Digo isso, novamente, como leigo em teoria e história do cinema, mas como admirador e curioso a respeito dos anos 1960. A primeira frase do resumo do catálogo é, ao meu ver, ilustrativa do esforço particular desse filme, ajudando a compreender o que eu achei fundamental do filme:

Primeiro filme europeu de Glauber, O Leão de Sete Cabeças é, ao lado de Cabeças Cortadas (Barcelona, 1969), uma das experiências cinematográficas mais alegóricas de Glauber Rocha, refletindo uma assumida influência do teatro épico-didático de Bertold Brecht e do cinema político à Godard, da execução recente de Ernesto ‘Che Guevara’ e das demandas por um cinema revolucionário-popular que vieram à tona a partir do maio de 1968 francês.

O mistério para mim, de como essas demandas estético-políticas surgem no seio de uma sociedade capitalista como a francesa, lidando com os temas mais espinhosos do debate em torno da arte e da revolução, do comunismo, do maoísmo, da construção de uma nova sociedade, etc etc., permanece na minha mente. Ao assistir um filme como esse, surge um novo mistério: o de como uma sociedade como a brasileira produz um crítico mordaz como Glauber, que consegue se igualar aos grandes discursos da brasilidade (estou me repetindo, eu sei, mas é intencional), mas num nível crítico poucas vezes igualado (se é que alguém o fez). Só me dei conta disso, acho, depois de terminar de ver esse filme, pois ali vemos o diálogo frontal com o cinema político de Godard, naquilo que ele tem de mais politizado: o uso de alegorias (quase que dentro de uma tradição medieval-cristã, talvez) de uma história moral (lembremos de Dogville e do “brechtianismo” de seu diretor, e das formas tradicionais de narrativas morais nas quais o filme se baseia) para contar as mazelas do capitalismo, expor as suas contradições, trazendo à tona a nova arte revolucionária. Godard, em Vento do Leste, faz um manifesto maoísta para a arte revolucionária, proletária, e anuncia sua filiação claramente. Já Glauber, talvez vários passos à frente, usa e evoca esse tipo de discurso cinematográfico para 1) retomar o seu tema eterno, o da formação particular do povo brasileiro; e 2) reconstruir esse cinema revolucionário europeu de um novo ponto de vista terceiro-mundista (e no mesmo Vento do Leste vemos que essa proposta foi percebida, mas não muito bem digerida ou compreendida talvez). Já me alongo demais no que eu queria dizer, mais por entusiasmo com o tema do que por grande conhecimento. Acho que a contribuição de Glauber é a de sempre pensar a forma pela qual somos o que somos como um mal de origem. A nossa colonização, a nossa posição particular no capitalismo mundial, a forma pela qual se estrutura nossa sociedade, explica nossas mazelas. Mas há uma cena, em Leão de Sete Cabeças, paradigmática do que quero ilustrar. Os personagens, alegoricamente representando o colonizador imperialista, o chefe tribal local (estamos na África) e a visão latino-americana (representada por Hugo Carvana), conversam a respeito da necessidade de lutar contra o revolucionário que busca depor o colonizador branco, mas sem matar no povo a ilusão de que conseguiram a “liberdade”. Um regime republicano fantoche é então proposto. O chefe local se pergunta como efetivar essa liberdade sem luta. Hugo Carvana diz algo em seu ouvido, e ele entende: é a descolonização através da “amizade”. A solução latino-americana para a luta de classes, poder-se-ia pensar, algo talvez incompreensível para europeus. A amizade do regime das elites locais (capitalistas) e dos antigos colonizadores brancos para apaziguar os ânimos e deter os revolucionários (representados por um Che e por um Zumbi). Toda a discussão sobre o neo-colonialismo está aí resumida, e o dogmatismo de um cinema ideológico maoísta é amenizado, tornado mais crítico sob a luz da experiência colonial. Afinal, Glauber é um diretor que conhece o colonialismo de perto. O cenário desse filme em particular, a África, não é escolhido por acaso, pois ali temos lutas parecidas e ali a questão “terceiro-mundista” (termo já enterrado) também faz sentido. Cenas assim se repetem por todo o filme, e infelizmente não cito outras, pois me fugiram à memória, já fazem semanas que assisti o filme. Mas creio que consegui passar a questão fundamental que me interessou nesse filme. Sugiro essa questão como início de um debate sobre Glauber e o cinema daquela época, e não com análise fechada, pelas razões que já citei acima. A meu ver, temos em Glauber um “tropicalismo” verdadeiramente crítico, politizado e atento ao que ocorria no mundo. Temos ali doses potencializadas (weaponized tropicalism, eu diria em inglês) do que o tropicalismo poderia ter sido caso não houvesse uma ditadura militar no Brasil. Minha fascinação com esse debate cultural vem de muito longe, desde minha adolescência, e o momento atual é, para mim, riquíssimo e urgentemente necessitado de forças criativas como foram as mobilizadas por Glauber e outros em seu tempo. O fim do “lulismo” (ou “petismo”) romântico abre o caminho para novos (mais interessantes espero) rumos intelectuais para nosso país, e sobre isso, se puder, escrevo posteriormente.

 



Escrito por Komentarista às 00h36
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