
Blade era o apelido que tinham lhe dado, desde que furou um colega de fliperama numa dessas tardes delinqüentes em que, sem nada de útil ou inútil para fazer, acompanhava novamente Trinta-e-dois nos seus rompantes. Trinta-e-dois era dado a esses rompantes, era uma máquina de buscar prazer, seguia seus instintos como um touro sedento de água e sexo. Quando via um par de tetas, diziam, não conseguia pensar em outra coisa. Já Blade era do tipo reservado. Não o perceberia, no entanto, o moleque desavisado que, gastando as moedas que sua avó lhe deu, fosse bem arrumado e cheiroso ao fliperama tentar jogar as máquinas coloridas e barulhentas. Ali, território de Blade e Trinta-e-dois, tais presas suculentas viam somente um par de “cães raivosos”, termo cunhado por uma menina atacada por eles.
Nesse dia, a tal menina, acompanhada do tal menino cheiroso, bem arrumado e desajeitado, resolveu levar sua amiga de escola para o fliperama. Num desses jogos de sedução no qual o menino, interessado pela tal garota, se fazia de desentendido, arrastando a coitada para o programa que ela menos queria fazer. Ela adoraria ter ido à padaria, para que o menino lhe comprasse um sorvete, como mandam as revistas. Mas não: estava ali num lugar escuro e mal-cheiroso, cheio de adolescentes barulhentos, alguns mal-encarados. Foi nesse dia que ela teve o azar e desprazer de conhecer a dupla, Blade e Trinta-e-dois. O por que daqueles nomes, ela jamais soube, pois morreria antes que pudesse descobrir. Mas isso é outra história.
Blade olhou para o projeto de casal e viu ali mais uma aventura para Trinta-e-dois. Ele adorava bolinar meninas como aquela e aterrorizar meninos metidos, filhinhos-de-papai-metidos-a-valentes como aquele. Blade o considerava seu único amigo, pois ele não lhe fazia perguntas idiotas, não lhe atacava com chacotas, o deixava simplesmente estar com ele. Blade admirava a forma bruta e decidida com que Trinta-e-dois jogava o fliperama. As bolinhas, as luzes, o rapaz driblava aquilo tudo com maestria, algo que para ele próprio parecia uma tarefa ingrata demais para ser tentada. Os outros meninos, freqüentadores da região, chacoteavam o coitado do Blade; chamavam-no de maricas, de incapaz. Ele passou a andar com uma faca, aprendeu-o vendo um mendigo se protegendo de um policial brutamontes. Nunca havia usado a arma: mas ao senti-la amarrada à cintura, sentia ânimo e coragem para encarar as hordas de meninos, toda vez que entrava o Fliperama acompanhando Trinta-e-dois.
Trinta-e-dois não se preocupava com muita coisa, além de saciar sua vontade por emoções. Ainda jovem, já era quase mais alto que os adultos donos do local, o que afastava as chacotas e desafios dos outros moleques. Ele parecia gostar de Blade, e isso fazia toda a diferença. Não fazia muito tempo que Blade chegara à cidade, e seu terror diante dos meninos quase desaparecia ao lado do seu amigo. Trinta-e-dois passava dias e dias jogando fliperama, e a única coisa que parecia focar sua atenção mais do que isso era alguma revista pornográfica esquecida pelos cantos, ou mesmo algum traseiro feminino mais arredondado. Blade às vezes se cansava; numa dessas tardes, chegou a ficar seguindo um traseiro com Trinta-e-dois durante duas horas seguidas, até que foram enxotados pelo porteiro do prédio onde a moça morava.
Mas voltemos àquele dia, no qual um certo rapaz bem arrumado, metido a homenzinho, carregou sua suposta namoradinha para o fliperama ao invés de comprar-lhe o sorvete, que ela gostaria de ter ganhado, depois de ler na revista que era assim que as coisas funcionavam. Naquele dia, Blade cutucou o ombro de Trinta-e-dois, mostrando o jovem mancebo se exibindo para a entediada menina. Entreolharam-se, e começaram a puxar conversa com o dito rapaz. Este, acostumado a maltratar a empregada em casa, disse em tom de autoridade que não lhe enchessem o saco.
Foi a senha para que Blade o mandasse calar a boca, pois queria jogar naquela máquina, enquanto Trinta-e-dois começava a querer tocar os cabelos lisos e castanhos da menina. Esta de pronto rechaçou-o, e disse que estava indo embora naquele minuto. E o fez. O mancebo ainda ficou ali, indignado e querendo tirar satisfações com a dupla. O dono do fliperama, acostumado, não achou que fosse hora de intervir, ainda. Engano dele, pois um dos moleques, já cansado de Blade, achou-se no direito de querer mandá-lo bater no filhinho-de-papai. Desafiou-o a ser homem e dar um soco nele. Aquilo enfurecia Blade como poucas coisas. Trinta-e-dois, já sem a menina e pouco entusiasmando com a briga, já estava começando outro jogo em uma máquina mais afastada. Isto também enfureceu Blade: onde estava seu amigo quando ele mais precisava? De que adiantava ter um amigo grande e corajoso se ele não iria lhe proteger daqueles moleques?
Enquanto isso a voz desafinada do antagonista de Blade ecoava em seu crânio. Aquela voz de adolescente, que estava ainda engrossando. Blade começou a se sentir quente, e ficou divagando até que sentiu um cutucão no ombro. Era seu coleguinha de fliperama, agora mais interessado em irritá-lo do que em bater no rapaz bem-arrumado. Blade não entendia por que o rapaz simplesmente não sumia. Ele não lhe tinha feito nada. Não entendia por que precisava provar algo para alguém que mal conhecia. Onde estava Trinta-e-dois? Sentiu outro cutucão.