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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos [komentarista@uol.com.br]



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O Komentarista
 

contos



[conto, parte final]

Rapidamente e quase sem pensar, Blade tira a faca, que estava escondida embaixo de sua camisa, amarrada por um barbante. Num movimento brusco e certeiro, aloja a faca no braço do rapaz desafinado, perto do bíceps. Sentiu a pele romper-se, e a faca penetrar as carnes macias e quentes de seu adversário. Seguiu-se um silêncio, e quando deu por si, estava sendo observado por todos no fliperama. O menino que fora atacado, após o susto, começou a chorar copiosamente. Blade procurou os olhos de Trinta-e-dois, que o olhavam de maneira serena, quase como se ele esperasse por aquilo. Finalmente Blade havia mostrado do que era capaz. Blasé saiu correndo, esquecendo Trinta-e-dois, a faca, e tudo mais para trás. Sentia-se quente, ao mesmo tempo com um frio no estômago. Sentia vontade de correr até o outro lado da cidade e voltar, tamanha sua energia naquele momento. E correu muito, andou mais um tanto, só voltando para casa ao anoitecer.

No outro dia, Trinta-e-dois veio lhe procurar, como de costume.



Escrito por Komentarista às 06h41
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Blade era o apelido que tinham lhe dado, desde que furou um colega de fliperama numa dessas tardes delinqüentes em que, sem nada de útil ou inútil para fazer, acompanhava novamente Trinta-e-dois nos seus rompantes. Trinta-e-dois era dado a esses rompantes, era uma máquina de buscar prazer, seguia seus instintos como um touro sedento de água e sexo. Quando via um par de tetas, diziam, não conseguia pensar em outra coisa. Já Blade era do tipo reservado. Não o perceberia, no entanto, o moleque desavisado que, gastando as moedas que sua avó lhe deu, fosse bem arrumado e cheiroso ao fliperama tentar jogar as máquinas coloridas e barulhentas. Ali, território de Blade e Trinta-e-dois, tais presas suculentas viam somente um par de “cães raivosos”, termo cunhado por uma menina atacada por eles.

Nesse dia, a tal menina, acompanhada do tal menino cheiroso, bem arrumado e desajeitado, resolveu levar sua amiga de escola para o fliperama. Num desses jogos de sedução no qual o menino, interessado pela tal garota, se fazia de desentendido, arrastando a coitada para o programa que ela menos queria fazer. Ela adoraria ter ido à padaria, para que o menino lhe comprasse um sorvete, como mandam as revistas. Mas não: estava ali num lugar escuro e mal-cheiroso, cheio de adolescentes barulhentos, alguns mal-encarados. Foi nesse dia que ela teve o azar e desprazer de conhecer a dupla, Blade e Trinta-e-dois. O por que daqueles nomes, ela jamais soube, pois morreria antes que pudesse descobrir. Mas isso é outra história.

Blade olhou para o projeto de casal e viu ali mais uma aventura para Trinta-e-dois. Ele adorava bolinar meninas como aquela e aterrorizar meninos metidos, filhinhos-de-papai-metidos-a-valentes como aquele. Blade o considerava seu único amigo, pois ele não lhe fazia perguntas idiotas, não lhe atacava com chacotas, o deixava simplesmente estar com ele. Blade admirava a forma bruta e decidida com que Trinta-e-dois jogava o fliperama. As bolinhas, as luzes, o rapaz driblava aquilo tudo com maestria, algo que para ele próprio parecia uma tarefa ingrata demais para ser tentada. Os outros meninos, freqüentadores da região, chacoteavam o coitado do Blade; chamavam-no de maricas, de incapaz. Ele passou a andar com uma faca, aprendeu-o vendo um mendigo se protegendo de um policial brutamontes. Nunca havia usado a arma: mas ao senti-la amarrada à cintura, sentia ânimo e coragem para encarar as hordas de meninos, toda vez que entrava o Fliperama acompanhando Trinta-e-dois.

Trinta-e-dois não se preocupava com muita coisa, além de saciar sua vontade por emoções. Ainda jovem, já era quase mais alto que os adultos donos do local, o que afastava as chacotas e desafios dos outros moleques. Ele parecia gostar de Blade, e isso fazia toda a diferença. Não fazia muito tempo que Blade chegara à cidade, e seu terror diante dos meninos quase desaparecia ao lado do seu amigo. Trinta-e-dois passava dias e dias jogando fliperama, e a única coisa que parecia focar sua atenção mais do que isso era alguma revista pornográfica esquecida pelos cantos, ou mesmo algum traseiro feminino mais arredondado. Blade às vezes se cansava; numa dessas tardes, chegou a ficar seguindo um traseiro com Trinta-e-dois durante duas horas seguidas, até que foram enxotados pelo porteiro do prédio onde a moça morava.

Mas voltemos àquele dia, no qual um certo rapaz bem arrumado, metido a homenzinho, carregou sua suposta namoradinha para o fliperama ao invés de comprar-lhe o sorvete, que ela gostaria de ter ganhado, depois de ler na revista que era assim que as coisas funcionavam. Naquele dia, Blade cutucou o ombro de Trinta-e-dois, mostrando o jovem mancebo se exibindo para a entediada menina. Entreolharam-se, e começaram a puxar conversa com o dito rapaz. Este, acostumado a maltratar a empregada em casa, disse em tom de autoridade que não lhe enchessem o saco.

Foi a senha para que Blade o mandasse calar a boca, pois queria jogar naquela máquina, enquanto Trinta-e-dois começava a querer tocar os cabelos lisos e castanhos da menina. Esta de pronto rechaçou-o, e disse que estava indo embora naquele minuto. E o fez. O mancebo ainda ficou ali, indignado e querendo tirar satisfações com a dupla. O dono do fliperama, acostumado, não achou que fosse hora de intervir, ainda. Engano dele, pois um dos moleques, já cansado de Blade, achou-se no direito de querer mandá-lo bater no filhinho-de-papai. Desafiou-o a ser homem e dar um soco nele. Aquilo enfurecia Blade como poucas coisas. Trinta-e-dois, já sem a menina e pouco entusiasmando com a briga, já estava começando outro jogo em uma máquina mais afastada. Isto também enfureceu Blade: onde estava seu amigo quando ele mais precisava? De que adiantava ter um amigo grande e corajoso se ele não iria lhe proteger daqueles moleques?

Enquanto isso a voz desafinada do antagonista de Blade ecoava em seu crânio. Aquela voz de adolescente, que estava ainda engrossando. Blade começou a se sentir quente, e ficou divagando até que sentiu um cutucão no ombro. Era seu coleguinha de fliperama, agora mais interessado em irritá-lo do que em bater no rapaz bem-arrumado. Blade não entendia por que o rapaz simplesmente não sumia. Ele não lhe tinha feito nada. Não entendia por que precisava provar algo para alguém que mal conhecia. Onde estava Trinta-e-dois? Sentiu outro cutucão.



Escrito por Komentarista às 14h59
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Nunca gostei muito de perder as coisas. Talvez mimo demais, talvez egoísmo. Hoje já penso que tudo não passa de muita insegurança. Perder envolve mexer-se do seu (suposto) abrigo, tornar-se menos seguro. Perder amigos envolve perder referências. Perder um amor pode ser um trauma insuperável. Talvez preciso (precisemos?) de coisas que nos garantam que somos amados, queridos, desejados, necessários. Talvez nossa extrema dependência de significados para a vida (comer, dormir e trepar nunca são o suficiente para a maioria, parece; ainda que saibamos que pouca coisa além disso interessa de fato) nos torne tão dependentes de algumas relações. Relações sociais podem ser libertadoras, e podem ser prisões. São fonte de amor e de alívio, mas geram todo tipo de ansiedade ao mesmo tempo. Eu nunca abriria, há algum tempo atrás, mão de nenhuma relação, por mais medíocre e destrutiva. Insegurança extrema gera dependência, e ninguém está a fim de segurar a onda de ninguém. Não por maldade, é que o fardo de cada um já é pesado o suficiente sem ter que carregar o fardo alheio. Perder pode também ser um ganho: perder uma mala pode significar ter mais leveza no caminhar, mais força para enfrentar os perigos da estrada. Livrar-se de várias malas sem alça é, dessa forma, um alívio multiplicado. Conseguimos abrir mão das coisas, especialmente as desnecessárias, quando começamos a ter clareza do que realmente importa para nós. Antes disso, colecionamos todo tipo de objeto inútil, na esperança de estar preparado quando a necessidade para ele aparecer. Quando sabemos (ainda que não totalmente) o caminho a percorrer e o prêmio a perseguir, tentamos levar apenas o necessário, abrindo espaço para o novo na medida em que ele agrega, e não por outros motivos. Perdas causam ansiedade. Dor. Solidão. Agarro-me na esperança de que um sol mais brilhante me leve a paradas mais tranquilas.



Escrito por Komentarista às 15h15
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