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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos [komentarista@uol.com.br]
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confissões

Não faria sentido colocar letras de música nesse momento, quando o que eu queria evocar eram as sonoridades, o piano sendo tocando melancolicamente, ao fundo um sopro obscuro e aconchegante. Estrelas brilham, piscam, marcando uma atmosfera de sonho e de nostalgia. Saudades de pessoas, de toques, de momentos. Saudades de sonhos que nunca mais serão possíveis. Saudades, e ao mesmo tempo respiro aliviado. Descanso, aguardando novas batalhas. Me angustio e me fascino com o que possa vir, e me emociono com o que passou. Algumas coisas definitivamente são feitas para serem vividas e esquecidas; algumas coisas, ainda que belas, não fazem sentido fora daquele tempo na qual existiram. Perdas e danos? Perdas e ganhos, num ciclo.
Escrito por Komentarista às 16h04
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Sobre ser gay
Ainda sob o impacto de tantas paradas gays pelo mundo, e inspirado na recente aprovação da união civil entre parceiros do mesmo sexo na Espanha, quis deixar aqui essa nota sobre homossexualidade. Escrevo também por conta do diálogo que esse blog mantém com uma série de “blogs gays” (essa categoria é problemática, pois nenhum blog se limita a um assunto dessa forma, mas isso seria papo para outro post; chamo-os de blogs gays pelo fato de serem escritos por gays e por tratarem preponderantemente de assuntos ligados ao cotidiano e ao imaginário gay corrente). Lendo e conversando a respeito da condição gay no Brasil, sempre me incomodaram algumas opiniões, ditas e escritas por alguns indivíduos com os quais tenho contato, mas nunca quis entrar efetivamente na polêmica. Recentemente, a partir de algumas reviravoltas na minha vida pessoal e psíquica, por assim dizer, sinto uma maior necessidade de trabalhar isso, e esse post é apenas um pequeno sintoma disso.
Fico muito incomodado com a virulência de ataques feitos a gays assumidos, por parte de outros gays, a homossexuais “efeminados”, “caricatos”, “pintosos”, “cheios de trejeitos”, entre tantos argumentos que lemos por aí. O interessante é que esses ataques acontecem com muita freqüência entre os próprios gays, e não somente como homofobia por parte de heterossexuais. A questão sempre levantada é: esses gays perpetuam estereótipos de gays que não correspondem à realidade, ou que acabam por aumentar o preconceito contra os gays. Não acho esse argumento de todo errado, pois o papel de gay caricato a que somos limitados é bastante humilhante, e muitos gays assumidos realmente “compram” essa identidade efeminada como forma de vivenciar a sua sexualidade. O típico estilista/cabelereiro, ou o “gay Zorra Total/Praça é Nossa”. Não estou aqui querendo refutar esse argumento, mas olhar a questão de outro ângulo: alguns gays efeminados estão, pelo menos, tentando viver sua sexualidade de forma mais bem resolvida e menos clandestina. Tentam construir alguma forma de viver a sua vida que não seja restrita a encontros furtivos e anônimos.
Pela minha experiência pessoal, tenho percebido que os gays que mais atacam os efeminados são os que mais investem numa vida dupla. Sob o pretexto de fugir de estereótipos, acabam justificando para si mesmos a necessidade de viver uma vida escondida, às vezes até com namoradas e esposas de fachada, escondendo de todos a sua vida sexual-afetiva. Participam do mundo mais amplo por que não ofendem as sensibilidades heterossexuais, mas pagam o preço de serem sempre, em público, metade do que efetivamente são. No meu entender, essas pessoas não têm moral para criticar os gays que estão, pelo menos, tentando construir algum tipo de auto-estima para si próprios. Discordo da idéia que, para fugirmos do estereótipo do gay cabeleireiro, precisemos viver uma vida dupla. Ser discreto não é ser enrustido.
Aos que acham que podemos ser gays roqueiros, jogadores de futebol, presidentes do Brasil (e eu me incluo nesse grupo), digo o seguinte: se não concorda com o estereótipo, então seja algo diferente, ao invés de destruir o que outros tentam construir. Ao invés de levar sua vida dupla confortavelmente, enfrente (na medida do possível, afinal nem todos temos condições para bancar esse tipo de exposição) seus amigos, sua família, até seus empregadores, mostrando que ser gay não implica em ser efeminado, caricato, promíscuo. Construa ao invés de destruir o seu irmão (pois essas “bichinhas” são tão gays quanto vocês).
Não que a sexualidade precise ser algo público (e acho que isso precisa ser repensado especialmente nos movimentos gays atuais), mas eu acho fundamental a conquista do direito de sermos gays de forma normal, bem resolvida, sem que isso seja um entrave à nossa vida pública, sem que isso impeça que participemos plenamente do mundo. Acho importante a existência de espaços de convivência direcionados, como bares e boites gays. Só me recuso a achar que minha vida, pelo fato de ser gay, precisa ser restrita a estar todo dia ali, ainda mais se não me identifico com as atividades e conversas que ali ocorrem. Quero ter minha vida, meus amigos, meu trabalho, e ainda poder ter sexo e amor da maneira que me convém. E esse trabalho diário de mostrar ao seu irmão hétero, seu amigo hétero da escola, etc., de que ser gay é muito mais do que eles pensam, é uma força política poderosíssima. Nunca quis ser militante, pois meu trabalho é outro, mas me recuso a baixar a cabeça só pelo fato de ser gay. Acho muito mais interessante construir formas de ser gay publicamente de forma bem-resolvida, que fujam ao estereótipo do que passar dias e dias falando mal das bichinhas efeminadas. Para mim, esse é o próximo desafio a ser enfrentado numa época pós-parada gay.
Quem sabe assim nossas crianças, ao se apaixonarem pelo amiguinho da escola ou pelo vizinho, não precisem esperar para começar sua vida sexual fazendo “pegação”, sendo humilhados pelos que percebem sua condição. Quem sabe assim a perspectiva de vidas e projetos em comum não precisem ser mais uma ilusão, e a realidade do gueto gay, da vida noturna, do sexo fácil e da putaria generalizada seja apenas uma dentre várias opções de vida, e não uma necessidade a nós imposta.
Escrito por Komentarista às 19h53
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Viva o fracasso
Putz, tinha escrito um post enorme e confessional sobre meu momento recente. Graças ao UOL, perdi tudo. Estou sem muito saco para reescrever... Mas queria deixar o momento marcado, uma pequena comemoração, ainda que auto-celebratória. Meu momento atual tem sido marcado por uma série bastante grande de fracassos, sejam eles amorosos, profissionais, intelectuais. Me vejo hoje no cenário que eu imaginei ser o pior possível para mim, e do qual me protegi a todo custo. Concretizado tal cenário, me vi livre de um monte de inseguranças fantasiosas. Hoje tenho muitas inseguranças e ansiedades; mas elas são reais, e eu tenho muitos meios para contorná-las, com paciência e determinação. Sempre me defendi do mundo atrás de uma couraça de intelectual. Sempre escondi minhas fraquezas por trás dessa imagem de inteligente e culto. Isso me enfraqueceu nas outras partes do mundo com as quais preciso lidar. Ultimamente tenho sido forçado a encarar isso, e tem sido doloroso e transformador. Mas acredito que nunca mudamos nada a não ser quando a vida nos força a isso (que me desculpem os analisados de plantão). Hoje tenho a leveza de não saber direito para onde estou indo, onde vou morar, onde vou trabalhar, de não ter tantas certezas de como será minha vida. E tenho uma melhor noção das minhas armas, melhorei minha pontaria, parei de gastar tanta munição à toa. Nos últimos anos, esse tem sido o momento mais importante, e sou grato por ele.
Escrito por Komentarista às 02h36
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Passeando por São Paulo
"Ria, e o mundo rirá com você; chore, e você irá chorar sozinho"
Essa frase é do filme Old Boy, que assisti ontem. Um filme koreano cheio de socos no estômago. Como esquecer a cena da lula viva no restaurante japonês? Se bem que o que é chocante para mim pode ter um significado completamente diferente para um povo que considera cachorro uma espécie comestível. Eu odeio ser antropólogo! Mas eu adoro ser antropólogo. Saindo do filme me lembrei daquele outro filme que vi no sábado passado, Brown Bunny, um soco planejado, calculado, que demora uma hora e meia para ser desferido e que me deixou tonto, vendo estrelinhas, como nos desenhos. Até agora não consegui digerir direito aquilo. Saio do filme koreano, como sempre saio de filmes em geral, com a cabeça fervilhando de coisas; saio meio que ainda dentro do filme. Sou daqueles que se assusta com filme de luta e de catástrofe, cujo coração dispara quando o diretor demanda que dispare. Vai ver é catarse, sei lá. Descendo as escadas, uma muvuca de gente me aguardava: havia uma pré-estréia do filme do Bianchi (aquele do Cronicamente Inviável). Câmeras, taças vazias de champagne, gente de televisão. Cumprimento um conhecido que estava ali entrevistando os atores para um canal de TV a cabo. Nunca achei que eu teria conhecidos nesse ramo, mas nessa cidade não é tão difícil. Vejo aquela atriz, a do cartaz do filme, com os cabelos completamente brancos, e com um rosto de menina/madame. Fiquei pensando na sua personagem, possivelmente uma socialite à la Hebe Camargo, caminhando pelas favelas como uma Marie Antoinete, ofertando brioches de mandioca aos moradores. Não vi o filme, mas vi o cartaz, e pelo trailer "dá pra sentir o clima". Me lembrei agora do trailer de Terra em Transe, a nova versão restaurada, e da minha emoção em ver aquilo. Não descobri se o trailer é de época ou é novo, mas minha emoção, essa foi completamente nova. Nunca gostei de Glauber nem desse estilo de cinema "cabeça", assim como não gostava de arte nem de museus há poucos anos atrás. Quem diria! Depois de Godard, nunca mais vi Glauber com os mesmos olhos, e mal posso esperar para rever Terra em Transe, desta vez no cinema. Saindo do shopping acabei numa casa noturna/casa de shows, ali perto mesmo. Não conseguia ir para casa. Enquanto segurava uma garrafa de cerveja numa mão, um copo na outra, e escutava um jazz gostoso mas mal-tocado, pensei no quão certo estava aquilo tudo. De novo, nunca gostei de jazz, nunca consegui me relacionar com esse estilo de música. Engraçado isso, pois meu pai ouvia muito dixieland quando éramos crianças. Até que um dia eu vi Naked Lunch do Cronenberg... E depois disso nada seria o mesmo! Eu não gosto de cerveja, nem de casas como aquela, mas estava tudo tão certo, pelo menos naquele momento. Talvez seja só solidão mesmo, isso tudo passa. Eu pensava por que bandas como The Smiths ou Legião Urbana não mexiam comigo, ou no porque de estar ali e não em outro lugar onde as pessoas me conheciam; ou no porque de não ter ido naquele bar da Vila Madalena, naquela baladinha de aniversário para qual fui convidado. Se soubesse essas respostas, possivelmente não estaria escrevendo essas coisas aqui. Ando meio perdido e sem inspiração, mas Mr. Hankey me salvou uma noite dessas, sozinho em minha casa. O jeito é esperar um pouco e continuar na luta, pois não há realmente outro remédio.
Escrito por Komentarista às 16h11
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Hoje acordei com medo. Já sinto isso há algum tempo, mas há aqueles dias em que os sentimentos afloram com mais facilidade. Talvez o tempo gasto trancado em casa trabalhando ao computador, talvez as noites mal dormidas e recheadas de pesadelos. O medo é basicamente devido a um momento de transições importantes pelo qual estou passando atualmente, tanto emocionais quanto profissionais. As questões emocionais eu explicitei bastante em alguns posts passados, nos quais falava de paixão e decepção; as questões profissionais, bom, essas estão ruins para quase todo mundo, e eu ainda me encontro em posição privilegiada para lidar com isso. Mas o fato de não ter, nesse momento, algumas certezas, alguns portos onde possa me sentir seguro (que antes existiam) me deixam exasperado, ansioso, nervoso, estressado. Com medo em suma. Medo do futuro imediato, medo de não ter como me virar, de não achar nenhum emprego, de não conseguir me adaptar a essa nova situação, do momento de ter que defender a tese e me emancipar desse período de estudante, etc. Fora isso, tenho medo de encontrar alguém, de me apaixonar novamente, de isso atrapalhar minha performance profissional, de me frustrar com uma pessoa que nunca quis estar comigo, como tem acontecido ultimamente. Hoje, refazendo meu currículo pela milésima vez para mandar para outra faculdade que exige um formato que eu ainda não conhecia, revivi alguns momentos interessantes da minha trajetória profissional, lembrando-me das pessoas que conheci, dos envolvimentos que tive, dos sonhos que nutri, das conquistas que pareciam impossíveis e hoje fazem parte da minha história. Percebi que hoje vivo uma situação bastante familiar: a de ter que recomeçar, de ter que me readaptar a um novo lugar no mundo, de ter que reinventar minha personalidade e ocupar um novo espaço. A ansiedade, acompanhada de uma dose de empolgação pelo novo que pode vir a ser: essa combinação me acompanha a cada nova viagem, a cada novo projeto, a cada nova investida. A frustração de um sonho, ou de muitos, causa uma desilusão, mas abre caminho para tantos outros! Fácil escrever isso, mas quando se vive o momento da frustração, da readaptação, é difícil ver o lado bom lá na frente. “Você ainda vai rir disso tudo”, me disse meu pai hoje ao telefone. Confio nisso, mas hoje eu não consigo; como respondi a ele, “então me deixa rir depois que tudo passar!”. Um amigo meu me disse que a análise é uma boa maneira de reinventar-se; eu, pessimista, acho que somente buscamos mudar algo em nós mesmos quando somos obrigados a isso pelas circunstâncias. Conheço tantas pessoas que fazem anos de análise e, no entanto, são tão boçais quanto qualquer um de nós fudidos que nunca pisamos em um consultório; a diferença é que esses analisados profissionais conseguem elaborar discursos maravilhosos sobre seus dilemas e suas limitações. Quanto a fazer algo a respeito, isso é outro papo... Não sou contra análise, veja bem! Sou contra as pessoas ficarem me dizendo “vá fazer análise” a qualquer indício de infelicidade ou frustração que eu demonstre. Adoraria fazer, mas tudo tem sua hora, e não existe fórmula mágica para tudo; eu ainda acredito que a vida tem que ser sentida, e coisas como Prozac e análise são perigosas quando usadas como droga recreativa ou como assunto a ser conversado ad infinitum nos botecos da vida. Eu ainda não tenho certeza de que consigo me reinventar, mas percebo, por exemplo, a importância de se ter amigos, de se abrir para eles. Parece banal, mas é muito mais difícil (para mim pelo menos) buscar curtir os pequenos prazeres cotidianos, mesmo em momentos ruins, do que parecia ser a princípio. Na vida nunca temos certezas absolutas: parece ser essa a lição desse meu “retorno de saturno”; ou eu me adapto a isso e aprendo a curtir as pequenas certezas, ou vou quebrar a cabeça de tanto bater na parede.
Escrito por Komentarista às 19h20
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