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Novo endereço: KOMENTARISTA.BLOGSPOT.COM
O UOL Blog é um serviço de péssima qualidade e, como sou assinante, cansei-me dos constantes problemas daqui. Encerro esse blog e continuo a jornada num novo endereço: http://komentarista.blogspot.com.
Escrito por Komentarista às 03h53
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Mais corpos e políticas: televisão
 
Estava hoje assistindo a um programa de televisão, Extreme Makeover (exibido no Brasil pelo Canal Sony, e nos EUA pela rede ABC), e percebi que meu argumento sobre como Kalatozov e Cronenberg têm tudo a ver estava sendo encenado ali, diante de meus olhos. Ou seja, o encontro aconteceu, e acontece faz tempo, e está cada vez mais visível e importante. O programa parte de uma premissa bastante simples: algumas pessoas são escolhidas e o programa lhes paga cirurgias plásticas, para que mudem o seu visual, "melhorando" assim sua aparência. Num mundo cada vez mais dominado por imagens, a nossa aparência exterior é cada vez mais um aspecto fundamental da nossa identidade. Quem mora em grandes centros urbanos talvez sinta isso mais de perto, mas o fenômeno ocorre em toda a sociedade, e no mundo inteiro. Política. Quem não tem o visual correto, ou desejado, se vê claramente em desvantagem na sociedade. Prazeres. Muitas pessoas querem simplesmente brincar com seu visual, ou agradar aos seus maridos e esposas. A questão renderia muitos textos, e quero aqui apenas evocá-la, para me conter dentro do espaço limitado de um blog e do seu ritmo de leitura. Não me canso de assistir o programa: ver a emoção das pessoas quando os curativos são retirados é grotesco e, ao mesmo tempo, me toca, pois aquele tipo de felicidade é realmente extrema, a experiência como um todo é extrema, e ao mesmo tempo cada vez mais banal. Quando uma mulher se vê com um novo nariz, ou novos dentes, ou sem aquela barriga flácida, ou com novos seios. Ou aquele cantor falido que, após a sua transformação, se sente capaz de conquistar o mundo. Podemos analisar a visualidade do programa, como quando se apresenta a equipe de cirurgiões plásticos. Me faz lembrar jogos eletrônicos, quando os diferentes personagens são apresentados, ao lado sendo expostos as suas qualidades e super poderes. Ou mesmo propaganda política, quando vemos o rosto sorridente do candidato, ao fundo uma música emocionante. Bizarro ainda é o momento da "revelação" da pessoa transformada aos seus amigos e parentes: a pessoa surge por detrás de uma cortina, num palco ou escadaria, fazendo a típica "entrada triunfal". É o triunfo da imagem sobre o corpo? Do corpo e da imagem sobre a política? Da televisão sobre nossos corpos? Do homem sobre as suas limitações? Valores impressos na carne.
 
Ingrid, a 35-year-old accountant from Aurora, CO, is tired of feeling invisible because of her appearance. For years she's been passed up for jobs because of her looks, particularly her bad skin and wild and frizzy hair. Many times employers have scheduled job interviews with her, but once they saw her, they would turn her away and claim they weren't hiring. Ingrid's dream is to own an accounting consulting business. However, before she can help business owners get a handle on their finances, Ingrid wants an extreme makeover to help her get a handle on her overall appearance.
[fonte do texto e imagens: site oficial do programa Extreme Makeover: http://abc.go.com/primetime/extrememakeover/bios/92366.html]
Categoria: comentários diversos
Escrito por Komentarista às 02h12
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Dica: Perspectivismo Ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro

"O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro começa a tornar público, na internet, seu trabalho de consolidação do perspectivismo ameríndio, que subverte e questiona a filosofia ocidental (Folha de S. Paulo, Domingo, 21 de agosto de 2005).
O espelho do ocidente
RAFAEL CARIELLO EDITOR INTERINO DO MAIS!
Foi o antropólogo Claude Lévi-Strauss, é claro, quem melhor deu conta da revolução que vem ocorrendo no terreno do pensamento que ele ajudou a demarcar: "Quer nos regozijemos, quer nos inquietemos, a filosofia está novamente no centro do palco antropológico. Não mais a nossa filosofia, aquela de que minha geração queria se livrar com a ajuda dos povos exóticos; mas, em uma notável reviravolta, a deles". O principal responsável pela façanha que Lévi-Strauss descreve, Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, há pelo menos três anos prometia um texto -em forma de livro- que sistematizasse e desenvolvesse as idéias que ele vem apresentando em artigos desde meados da década de 90. Mudou de idéia. Após escrever mais de 600 páginas, decidiu que a melhor maneira de dar continuidade ao seu pensamento seria colocá-lo à disposição de outras contribuições, que modificassem seu texto e construíssem uma obra coletiva, usando uma página na internet que permite o acesso e a intervenção de quem quiser nos trechos que ele leva à rede, no site do "Projeto AmaZone". No que já se pode ler no endereço virtual -em funcionamento há cerca de três meses-, o antropólogo busca "fundamentar melhor" sua tese. "Você sempre começa a pensar de maneira um pouco brutal", diz. Na entrevista que concedeu à Folha em sua casa, no Rio, Viveiros de Castro explica os avanços e a "embocadura" filosófica que sua teoria, o perspectivismo ameríndio, ganha com a nova obra virtual. Questiona as distinções entre mito e filosofia e apresenta uma compreensão da realidade por parte dos índios radicalmente diferente daquela dos herdeiros da tradição ocidental -que termina por subverter os fundamentos do pensamento filosófico, como os conceitos de sujeito e objeto, Deus, cultura e natureza. Daí que um dos colaboradores do AmaZone, Oscar Calavia, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, chegue a defender que a modernidade ocidental possa ser pensada como o resultado de controles e restrições a uma visão de mundo perspectivista, próxima à dos índios, que também já teve seu espaço entre os europeus."
[O endereço do projeto é http://amazone.wikicities.com/wiki/Projeto_AmaZone]
Escrito por Komentarista às 14h16
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Políticas (dois filmes)

Poster russo de Soy Cuba
Tive, há alguns dias atrás, a chance única de ver dois filmes fenomenais num curto espaço de tempo. Estava esperando há muito para vê-los, e aluguei os dois DVDs. Por causa disso, uma casualidade, achei interessante comentar os dois filmes juntos, pois creio que podemos pensar em ligações entre ambos num nível além do prazer que tive em assisti-los próximos um do outro. O primeiro é Eu Sou Cuba (Mikhail Kalatozov, URSS/Cuba, 1964, 140 min). O segundo é Videodrome, (David Cronenberg, EUA, 1983, 81 min.) Ligações em termos de serem dois filmes políticos, mas em diferentes sentidos.
Assistir a Eu Sou Cuba foi como uma revelação. Sempre tive curiosidade a respeito de filmes políticos, e a maioria dos filmes políticos que vi eram de diretores ocidentais idealizando uma revolução que nunca aconteceu. De Glauber a Godard, filmes morais e bastante teóricos/metafóricos sempre me fascinaram. Essa possibilidade da revolução, o idealismo e o otimismo com o homem e a sociedade, essa vontade de promover mudanças que trariam, sim, um mundo melhor e mais justo. Nos tempos pós-petistas em que vivemos, somos obrigados a carregar uma dose saudável de cinismo ao encarar construções de sentido como essas. Ainda assim, a beleza e a poesia desses filmes, a meu ver, permanecem inspiradoras.
Eu Sou Cuba é uma obra de arte inquestionável, pela força da sua visualidade, pela maestria da sua técnica, pela sua poesia. Jamais vi nada tão interessante que, conjugando o imaginário cubano, uma certa lamentação a respeito da condição subdesenvolvida do país, conseguisse falar que a revolução aconteceu, sim. O filme é maniqueísta, e fala com a autoridade de quem tem a superioridade moral dos justos e dos corretos. Mas a poesia dos textos, falados em espanhol e ditos novamente em russo, me parece quase universal, nos sentimentos de tristeza esperançosa que eles exprimem. Essa vontade incessante de acertar, de melhorar a vida. O filme termina antes de Havana ser tomada, e fica-se com aquela evocação de um evento magistral, gigantesco, que não vemos de fato. A revolução hoje tornou-se uma ditadura pobre e agonizante, talvez repleta dos pecados denunciados nesse filme: prostituição, dominação norte-americana, colonização cultural. Mas é incrível imaginar como a rivalidade entre a União Soviética e os Estados Unidos, causadora de milhões de mortes, espremeu pura beleza de um povo localizado em ponto tão estratégico. É um filme que lembra Terra em Transe; mas é como se Glauber tivesse ido a Cuba, tomado anabolizantes e treinado incessantemente para uma competição internacional. Não desmerecendo Glauber, mas parece que há uma escola na qual ele pode talvez ser inserido, deixo isso para os especialistas.

Cronenberg e James Woods
E falando em filmes políticos, tema que adoro, comento Videodrome nesse registro também. Nesse que é talvez um dos melhores e mais poderosos de seus filmes, Cronenberg constrói uma narrativa a respeito da "nova carne", fruto de uma conjugação entre seres humanos e a televisão, que seria quase que a sublimação do corpo, transformado em dados. Se eu fosse comentar o filme seria uma tese, e aliás o filme trata de tudo que gastei 4 anos estudando. O interessante é pensar, de forma especulativa como cabe nesse espaço, em Cronenberg como diretor político. Não no sentido que faz de Glauber ou Kalatozov políticos, mas num sentido diverso, de militar por estéticas diversas, por novas condições do humano diferentes da que vivemos. Em vários filmes o diretor aborda a política como subjacente aos fenômenos tecnológicos em pauta em seus filmes, conseguindo agregar numa unidade quase tudo que me dá tesão intelectualmente. O valor profético de Cronenberg, em franco "comeback", ainda está por ser explorado. Essa dificuldade acontece por que simplesmente nossas tecnologias ainda não fazem, mas estão em vias de realizar as mais insanas fantasias de artistas como Cronenberg. Termino com um trecho de uma ótima e curta resenha sobre Videodrome, encontrada na Internet. Publicada originalmente em 1983, quando do lançamento do filme, foi reescrita e atualizada para o lançamento do DVD:
In Videodrome, Cronenberg riskily goes one step beyond in identifying power structures that are, essentially, invisible. While exalting the awesome dynamics of the body—its sexual energy, its capacity for the extrasensory, its suggestibility—Cronenberg implies that the body is a transient state between individual existence and the creation of a "new flesh" in which the television screen is, literally, the retina of the mind’s eye. In the trancelike, if confounding, universe of Videodrome, the only way to resist eradication is to transform oneself into pure electronic energy. Understand that Videodrome was released sixteen years prior to The Matrix. (Make Mine Cronenberg, de Carrie Rickey, publicado originalmente no Village Voice, janeiro de 1983. Para ler o texto completo, clique em http://www.criterionco.com/asp/release.asp?id=248&eid=371§ion=essay&page=1)
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 03h11
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[conto, parte final]
Rapidamente e quase sem pensar, Blade tira a faca, que estava escondida embaixo de sua camisa, amarrada por um barbante. Num movimento brusco e certeiro, aloja a faca no braço do rapaz desafinado, perto do bíceps. Sentiu a pele romper-se, e a faca penetrar as carnes macias e quentes de seu adversário. Seguiu-se um silêncio, e quando deu por si, estava sendo observado por todos no fliperama. O menino que fora atacado, após o susto, começou a chorar copiosamente. Blade procurou os olhos de Trinta-e-dois, que o olhavam de maneira serena, quase como se ele esperasse por aquilo. Finalmente Blade havia mostrado do que era capaz. Blasé saiu correndo, esquecendo Trinta-e-dois, a faca, e tudo mais para trás. Sentia-se quente, ao mesmo tempo com um frio no estômago. Sentia vontade de correr até o outro lado da cidade e voltar, tamanha sua energia naquele momento. E correu muito, andou mais um tanto, só voltando para casa ao anoitecer.
No outro dia, Trinta-e-dois veio lhe procurar, como de costume.
Categoria: contos
Escrito por Komentarista às 06h41
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Blade era o apelido que tinham lhe dado, desde que furou um colega de fliperama numa dessas tardes delinqüentes em que, sem nada de útil ou inútil para fazer, acompanhava novamente Trinta-e-dois nos seus rompantes. Trinta-e-dois era dado a esses rompantes, era uma máquina de buscar prazer, seguia seus instintos como um touro sedento de água e sexo. Quando via um par de tetas, diziam, não conseguia pensar em outra coisa. Já Blade era do tipo reservado. Não o perceberia, no entanto, o moleque desavisado que, gastando as moedas que sua avó lhe deu, fosse bem arrumado e cheiroso ao fliperama tentar jogar as máquinas coloridas e barulhentas. Ali, território de Blade e Trinta-e-dois, tais presas suculentas viam somente um par de “cães raivosos”, termo cunhado por uma menina atacada por eles.
Nesse dia, a tal menina, acompanhada do tal menino cheiroso, bem arrumado e desajeitado, resolveu levar sua amiga de escola para o fliperama. Num desses jogos de sedução no qual o menino, interessado pela tal garota, se fazia de desentendido, arrastando a coitada para o programa que ela menos queria fazer. Ela adoraria ter ido à padaria, para que o menino lhe comprasse um sorvete, como mandam as revistas. Mas não: estava ali num lugar escuro e mal-cheiroso, cheio de adolescentes barulhentos, alguns mal-encarados. Foi nesse dia que ela teve o azar e desprazer de conhecer a dupla, Blade e Trinta-e-dois. O por que daqueles nomes, ela jamais soube, pois morreria antes que pudesse descobrir. Mas isso é outra história.
Blade olhou para o projeto de casal e viu ali mais uma aventura para Trinta-e-dois. Ele adorava bolinar meninas como aquela e aterrorizar meninos metidos, filhinhos-de-papai-metidos-a-valentes como aquele. Blade o considerava seu único amigo, pois ele não lhe fazia perguntas idiotas, não lhe atacava com chacotas, o deixava simplesmente estar com ele. Blade admirava a forma bruta e decidida com que Trinta-e-dois jogava o fliperama. As bolinhas, as luzes, o rapaz driblava aquilo tudo com maestria, algo que para ele próprio parecia uma tarefa ingrata demais para ser tentada. Os outros meninos, freqüentadores da região, chacoteavam o coitado do Blade; chamavam-no de maricas, de incapaz. Ele passou a andar com uma faca, aprendeu-o vendo um mendigo se protegendo de um policial brutamontes. Nunca havia usado a arma: mas ao senti-la amarrada à cintura, sentia ânimo e coragem para encarar as hordas de meninos, toda vez que entrava o Fliperama acompanhando Trinta-e-dois.
Trinta-e-dois não se preocupava com muita coisa, além de saciar sua vontade por emoções. Ainda jovem, já era quase mais alto que os adultos donos do local, o que afastava as chacotas e desafios dos outros moleques. Ele parecia gostar de Blade, e isso fazia toda a diferença. Não fazia muito tempo que Blade chegara à cidade, e seu terror diante dos meninos quase desaparecia ao lado do seu amigo. Trinta-e-dois passava dias e dias jogando fliperama, e a única coisa que parecia focar sua atenção mais do que isso era alguma revista pornográfica esquecida pelos cantos, ou mesmo algum traseiro feminino mais arredondado. Blade às vezes se cansava; numa dessas tardes, chegou a ficar seguindo um traseiro com Trinta-e-dois durante duas horas seguidas, até que foram enxotados pelo porteiro do prédio onde a moça morava.
Mas voltemos àquele dia, no qual um certo rapaz bem arrumado, metido a homenzinho, carregou sua suposta namoradinha para o fliperama ao invés de comprar-lhe o sorvete, que ela gostaria de ter ganhado, depois de ler na revista que era assim que as coisas funcionavam. Naquele dia, Blade cutucou o ombro de Trinta-e-dois, mostrando o jovem mancebo se exibindo para a entediada menina. Entreolharam-se, e começaram a puxar conversa com o dito rapaz. Este, acostumado a maltratar a empregada em casa, disse em tom de autoridade que não lhe enchessem o saco.
Foi a senha para que Blade o mandasse calar a boca, pois queria jogar naquela máquina, enquanto Trinta-e-dois começava a querer tocar os cabelos lisos e castanhos da menina. Esta de pronto rechaçou-o, e disse que estava indo embora naquele minuto. E o fez. O mancebo ainda ficou ali, indignado e querendo tirar satisfações com a dupla. O dono do fliperama, acostumado, não achou que fosse hora de intervir, ainda. Engano dele, pois um dos moleques, já cansado de Blade, achou-se no direito de querer mandá-lo bater no filhinho-de-papai. Desafiou-o a ser homem e dar um soco nele. Aquilo enfurecia Blade como poucas coisas. Trinta-e-dois, já sem a menina e pouco entusiasmando com a briga, já estava começando outro jogo em uma máquina mais afastada. Isto também enfureceu Blade: onde estava seu amigo quando ele mais precisava? De que adiantava ter um amigo grande e corajoso se ele não iria lhe proteger daqueles moleques?
Enquanto isso a voz desafinada do antagonista de Blade ecoava em seu crânio. Aquela voz de adolescente, que estava ainda engrossando. Blade começou a se sentir quente, e ficou divagando até que sentiu um cutucão no ombro. Era seu coleguinha de fliperama, agora mais interessado em irritá-lo do que em bater no rapaz bem-arrumado. Blade não entendia por que o rapaz simplesmente não sumia. Ele não lhe tinha feito nada. Não entendia por que precisava provar algo para alguém que mal conhecia. Onde estava Trinta-e-dois? Sentiu outro cutucão.
Categoria: contos
Escrito por Komentarista às 14h59
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Ando meio sem inspiração para escrever. Acho que é cansaço intelectual; ando pensando demais e meu corpo às vezes não agüenta. Mas o show precisa continuar, assim como o blog, então escrevo algumas linhas sobre os dois excelentes filmes que assisti hoje, retornando às sessões duplas Comodoro no Cinesesc, SP.
O primeiro foi Cães Raivosos (Cani Arrabbiati, Itália, 1974, 96 min.), dirigido por Mario Bava. A história é bem simples: um grupo de bandidos, depois de um assalto, seqüestra um carro e levam, além de uma mulher, o motorista e seu filho como reféns. Segundo a sinopse, esse foi o último filme de Mario Bava, que não sobreviveu para ver seu filme montado. Os negativos só foram reencontrados em 1998, quando o filme foi terminado, sob supervisão de seu filho, Lamberto Bava. Além da fotografia belíssima e da forma maravilhosa pela qual o filme é montado, levando a um ritmo excelente no desenrolar dos fatos (em conjunto com a música), um outro aspecto me chamou muito a atenção. Os personagens são maravilhosamente complexos, e os conflitos entre eles seguram a trama, que se desenrola basicamente no interior do automóvel seqüestrado. O personagem de Blade, o que comandava a faca, me pareceu o mais complexo e interessante: uma pessoa emocionalmente frágil, desequilibrada quase, que tinha no seu amigo 32 (esse era seu apelido) uma fonte de apoio e amor. Quando ele mata sua primeira vítima, vemos claramente que ele não o fez de propósito, e que não lhe fez bem. Não que ele seja bonzinho; algumas cenas mais tarde, vemos que ele é sim capaz de matar a sangue frio. Mas não há o prazer em matar, como outros exibem. E ele é capaz de, ao roubar uvas, pensar que as uvas silvestres são melhores que uvas “da cidade”. Pensei num menino do interior, traumatizado com muita coisa, tentando se segurar em pé enquanto trilha esse caminho da violência. Enfim, me deu vontade de escrever um conto explorando aquele personagem em particular (quem sabe num futuro mais calmo).
O segundo filme, Tetsuo, O Homem de Ferro (Tetsuo, Japão, 1988, 96 min.), do diretor Shinya Tsukamoto é quase um delírio sem roteiro definido. Vale pelo gozo da visualidade bizarra e inovadora do filme, que gira em torno de um tema bastante interessante, as relações/misturas/conflitos entre carne e metal. Esse mote aparece resumido numa cena fundamental logo no início: um homem aparece cortando profundamente a sua perna com uma faca, expondo a carne. Em seguida, ele insere nesse corte um pedaço de metal, enfaixando a ferida em seguida. Quando o homem desenrola o curativo ensangüentado, vemos que ele apodreceu: vermes aparecem num close perturbador e rápido. Aliás, o filme tem um ritmo veloz (tudo ao som de uma trilha ensurdecedora e nervosa) que não diminui até o fim do filme. Alguns temas aparecem em dois “movimentos” bastante distintos, ambos marcados pelo conflito entre duas entidades. Primeiro vemos um homem e uma mulher, o primeiro se tornando paulatinamente uma criatura de metal, metamorfose essa marcada por uma sensação de putrefação e decadência, degeneração. A mulher, a princípio não muito abalada com aquilo, acaba se chocando e tentando matar essa criatura, tornando-se vítima dela. Nas cenas aparecem temas interessantes como ansiedades sexuais (destaco a figura marcante da mulher fálica) e uma paranóia gigantesca. Essa paranóia marca toda essa primeira parte, e consegue ser mostrada visualmente (e não explicada ou falada por ninguém) de forma interessantíssima. Num segundo “movimento” vemos uma luta entre um homem de metal e uma outra criatura (que poderia ser a mulher transformada), que remete a filmes de monstros e aos seriados como Ultraman. Pensei também no desenho fundamental Akira (que possui, como lembrou Mariana, um protagonista chamado Tetsuo também). Essa divisão é puramente analítica, e o filme na verdade não se pretende um conjunto de dois movimentos. Penso que ansiedades em torno da tecnologia são sugeridas, tanto nos corpos como na cidade que circunda a todos (canos, tubos, trens, carros, lataria). Referências visuais as mais diversas são liquidificadas num emaranhado bizarro, mas muito interessante.
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 03h35
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