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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos [komentarista@uol.com.br]
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O Komentarista |
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The Cameraman (Buster Keaton, 1928)

[NOTA - 01/08/2005: Descobri hoje (e parece que foi publicado hoje mesmo) um texto na revista Trópico que faz o mesmo percurso analítico que sugeri no post, só que em maior profundidade. Até a ilustração é a mesma... Comento isso aqui pois o texto que segue foi escrito antes de eu tomar conhecimento desse artigo. o link é: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2625,1.shl]
Esse post serve mais para marcar a oportunidade que tive de ver o filme The Cameraman, de Buster Keaton, do que para fazer qualquer análise mais profunda. Há temas que me empolgam, ou nos quais sinto um mínimo de segurança conceitual para publicar comentários mais elaborados. Ao mesmo tempo, seria irresponsável deixar essa oportunidade em branco. O filme, de 1928, me lembrou muito um “quê” de Woody Allen: o underdog, que tenta vencer na grande cidade, que tenta conquistar a garota mas se atrapalha todo. Se bem que em Keaton, não há uma certa celebração da neurose urbana, e sim um típico roteiro romântico. Extremamente atual, a forma de contar a história de Keaton foi me seduzindo ao longo do filme, pois confesso que fui ver mais como pesquisador do que como espectador. “Pesquisador” no sentido de que a possibilidade de ver um filme de Keaton, no cinema (e foi o meu primeiro), aguçou meus sentidos. E fiquei imaginando em como comparar esse filme com outros do mesmo período, que me marcaram quando os vi, especialmente o Homem com uma câmera de Dziga Vertov (1929). Tantos temas poderiam ser comentados aqui em relação a esse filme de Keaton: a oportunidade de vermos uma cidade dos anos 1920, a engraçada comparação entre o aparato tecnológico daquela época com o de hoje, as formas que o cinegrafista atua naquela época em um grande jornal (pois o personagem principal do filme, Buster, procura emprego num grande jornal tentando atuar como cinegrafista), etc... Há também uma problemática importante: as formas que o aparato visual do cinema, ou a forma nova de ver o mundo possibilitada pelo cinema, muda as nossas relações com esse mesmo mundo. Talvez aí haja uma interseção poderosa entre meus interesses de cientista social e as pesquisas da área de cinema propriamente. O filme de Keaton começa com uma celebração do heroísmo dos cinegrafistas que trazem a nós a realidade de guerras, por exemplo. Toda a ação do filme, por sua vez, gira em torno de um aspirante a cinegrafista, e podemos comparar as formas de se fazer jornalismo (no sentido de trazer ao público a realidade via uma mediação tecnológica) nos anos 1920 com a nossa própria, de emergência das tecnologias digitais e da onipresença da televisão. Não se trata, obviamente, de simplesmente mostrar o mundo: dizer isso seria comprar o discurso que o jornalismo e suas estruturas de poder constrói sobre si mesmo, para se legitimar. Trata-se, e aí a questão do cinema se torna muito atraente para mim, de construir um novo mundo, de alterar o mundo a partir dessas tecnologias. Daí a comparação com Dziga Vertov, e com toda uma linha de cineastas que me interessam profundamente. Muitos filmes, assim como The Cameraman, tocam nessa questão de forma direta ou indireta, como tema central ou como parte da trama. Destaco aqui o cada vez mais indispensável para mim Cannibal Holocaust (recuperando um comentário antigo desse blog).
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 17h14
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Para cinéfilos amantes de Kieslowisk

Mostra do cinema de Kieslowski no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo [http://www.bb.com.br/cultura]
Programação:
Agosto Dia 23,
terça: · 14h A Liberdade É Azul (100’) ·
16h A Igualdade É Branca (100’) ·
18h A Fraternidade É Vermelha (100’) ·
20h Debate entre a jornalista Neusa Barbosa (CineWeb) e a pesquisadora Andréa França (PUC-RJ) e o público
Dia 24, quarta ·
13h A Cicatriz (105’) ·
15h O Amador (110’) ·
17h10 O Acaso (120’)
Dia 25, quinta ·
14h A Dupla Vida de Veronique (90’) ·
16h A Liberdade É Azul (100’) ·
18h A Igualdade É Branca (100’) ·
20h A Fraternidade É Vermelha (100’)
Dia 26, sexta ·
14h A Fraternidade É Vermelha (100’) ·
16h Sem Fim (110’) ·
18h10 O Acaso (120’) ·
20h30 A Igualdade É Branca (100’)
Dia 27, sábado ·
12h A Liberdade É Azul (100’) ·
14h A Cicatriz (105’) ·
16h05 O Amador (110’) ·
18h15 Sem Fim (110’) ·
20h25 A Dupla Vida de Veronique (90’)
Dia 28, domingo ·
14h Sem Fim (110’) ·
16h10 O Acaso (120’) ·
18h30 O Amador (110’) ·
20h40 A Cicatriz (105’)
Dia 30, terça ·
14h A Dupla Vida de Veronique (90’) ·
16h Não Matarás (85’) ·
18h Não Amarás (85’) ·
20h Debate da pesquisadora Érika Savernini (UFMG) com o público
Dia 31, quarta ·
14h Decálogo Um e Dois (110’) ·
16h10 Decálogo Três e Quatro (110’) ·
18h20 Decálogo Sete e Oito (110’) ·
20h30 Decálogo Nove e Dez (110’)
Setembro Dia 1º, quinta ·
14h Não Amarás (85’) ·
15h50 Decálogo Um e Dois (110’) ·
18h Decálogo Três e Quatro (110’) ·
20h10 Decálogo Cinco e Seis (110’)
Dia 2, sexta ·
14h Não Matarás (85’) ·
15h50 Decálogo Cinco e Seis (110’) ·
18h Decálogo Nove e Dez (110’) ·
20h10 Decálogo Sete e Oito (110’)
Dia 3, sábado ·
14h Decálogo Nove e Dez (110’) ·
16h10 Decálogo Um e Dois (110’) ·
18h20 Decálogo Sete e Oito (110’) ·
20h30 Decálogo Três e Quatro (110’)
Dia 4, domingo ·
14h Decálogo Cinco (55’) ·
15h15 Não Matarás (85’) ·
17h Decálogo Seis (55’) ·
18h15 Não Amarás (85’)
Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo Rua Álvares Penteado, 112 — Centro — São Paulo — SP — Tel: (11) 3113-3651 — http://www.bb.com.br/cultura— Entrada: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia)
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 17h58
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Digerindo a crise

Algo difícil, assim ainda no meio da tempestade, tentar tecer comentários mais equilibrados a respeito de tudo que está acontecendo. Mas como este blog é altamente especulativo, teórico e se permite vôos da imaginação pelo puro prazer de pensar, então me coloco aqui a escrever algumas das coisas que têm me passado pela mente a cada novo escândalo. O caso Daslu, a princípio uma simples operação da Polícia Federal contra evasão de impostos, tomou rapidamente uma dimensão simbólica muito grande por conta dos significados mobilizados no decorrer da ação. A nova loja da Daslu já nasceu simbolicamente importante: era o novo tempo dos ultra-ricos, um espaço sagrado do capitalismo brasileiro, além de uma escultura, encravada no espaço urbano paulistano, que simbolizava a sua elite local bem-sucedida. Mais do que uma mega loja, a Daslu (assim como fora o magazine Mappin Stores nos anos 1920) se consolidou como essa homenagem à elite paulistana e aos ricos brasileiros, antenados com o mundo. Quando a pessoa que encarna esse simbolismo, a empresária Eliana Tranchesi, se vê presa em sua própria casa, a elite se vê submetida a um jogo normalmente reservado aos mais pobres, marginais e desqualificados. O timing da operação da PF ajudou a exacerbar os ânimos, pois tudo ocorreu num momento de desconstrução do PT e do governo de Lula como alternativas de poder viáveis para o país. Talvez, quem sabe, a desconstrução da idéia de que outro grupo, que não essa elite “dasluniana”, possa um dia governar com sucesso a nação. Não estou aqui avaliando a maior ou menor capacidade desse ou daquele agrupamento político de ser governo, pois não é disso que se trata aqui. Tento sim interpretar significados, que orientam ações, e que podem nos dar pistas do que está por vir. Bom, quando a elite tucana paulista finalmente se vê prestes a destruir o seu concorrente mais poderoso (pois em São Paulo a oposição PT vs. PSDB é mais efetiva do que em outros estados, me parece), parece que há um revide. Como disse Hebe Camargo (outra figura-símbolo paradigmática dessa elite paulistana), parece que houve a tentativa de desviar a atenção dos escândalos de Brasília. Ricardo Noblat, em seu blog, comenta a formação de uma bancada da Daslu no congresso, composta por parlamentares de todos os partidos que se revoltaram com a truculência da ação da PF. Ora, por que uma loja, ou uma empresária, valeria tamanha mobilização? Mas não se trata de uma loja somente, mas de um símbolo. Nos vemos, novamente, frente aos fantasmas da famigerada “luta de classes”, e teme-se que Lula abandone sua postura pró-mercado para começar a “perseguir a elite”. Algo que não aconteceu durante todo o governo petista parece começar a ocorrer: uma divisão clara de campos pró e contra a ação da PF marca grupos que, outrora, talvez preferissem manter-se discretamente fora dos holofotes. Temos pessoas aplaudindo a igualdade de tratamento nesse caso (rico também leva batida policial), e temos outras reclamando de perseguição. Esse tipo de polarização, e começo a especular, parece ser interessante para aumentar o nível do debate político no país (tão afeito ao apaziguamento de conflitos), mas por outro lado, e sempre volto nesse ponto, pode nos levar a um estado de coisas similar ao do governo de João Goulart, o que não seria nada desejável. Post scriptum especulativo: Seguindo a trilha aberta pelo post anterior, penso que podemos ler a derrocada do PT como o esgotamento de todos os projetos políticos surgidos no seio das lutas contra a ditadura. Nos palanques do MDB vimos surgir a elite política que nos governa desde a redemocratização, e sucessivamente esses projetos fracassam, de forma mais ou menos retumbante, e as figuras de Lula e Fernando Henrique foram os últimos respiros disso. Se esse fato revela um amadurecimento paulatino do eleitorado e do debate em torno de um projeto de país, hoje nos vemos numa situação crítica: esgota-se, com o fim do petismo romântico, o último projeto que mobilizava o idealismo político. Ainda que tenhamos grupos como o PSOL, que ainda não mostraram a que vieram, vivemos uma época de vazio que precede uma eleição geral. O perigo é a ascensão de tipos como Enéas Carneiro, projeto de fascista. Mas eu, no meu otimismo idiota e juvenil, penso que, como falei abaixo, temos a chance (e a necessidade) de voltar a especular sobre nossa sociedade, a fim de pensarmos para onde queremos ir. Precisamos de novos projetos, novas utopias, novos grupos dispostos a tentar dar rumo às coisas. Temos a oportunidade de voltar a ter movimentos culturais vigorosos, que nos dêem um refresco do império da bunda e do futebol (nem que seja para mobilizá-los de formas mais interessantes). Post post scriptum: esse post foi escrito há alguns dias. Cansei de esperar o UOL funcionar para colocar a imagem, então publico-o hoje. Nesse meio tempo, já foram publicados todo tipo de texto a respeito do caso Daslu, e chamo a atenção para a revista Carta Capital. Depois disso tudo, esse texto, escrito de improviso (como todos aqui publicados) me parece um tanto ingênuo. Sintoma de um momento de viradas repentinas e alta adrenalina política. A Globo, eternamente governista, deu mais um lance na "des-petização" de Lula com a entrevista do Presidente veiculada hoje no Fantástico. Em breve, acordos de alto nível começarão a mostrar a sua cara, pois nesse caso, ninguém da classe política se livra de alguma parcela de corrupção. A balela que foi a entrevista de Delúbio na Globo mostra que a merda jogada por Jefferson está longe de ter se dissipado por inteira. E como fede!
Categoria: comentários diversos
Escrito por Komentarista às 23h20
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Comento o último filme de Glauber Rocha que tive o privilégio de assistir quando da mostra no CCBB em São Paulo “O Cinema segundo Glauber e Pasolini”, que traçou um paralelo interessante entre os dois diretores. Não pude ver quase nada, e não vi nenhum do Pasolini desta vez, mas pude ver mais dois filmes de Glauber que não conhecia e ter uma visão mais completa dessa obra única na nossa cultura. E quando vi esse último, O Leão de Sete Cabeças, (título original: Der Leone Have Sept Cabeças) tive a certeza de que estava diante de uma verdadeira obra-prima. Não somente como uma obra isolada, mas dentro de um diálogo entre os cineastas da Nouvelle Vague, especialmente se pensarmos em Godard. Digo isso, novamente, como leigo em teoria e história do cinema, mas como admirador e curioso a respeito dos anos 1960. A primeira frase do resumo do catálogo é, ao meu ver, ilustrativa do esforço particular desse filme, ajudando a compreender o que eu achei fundamental do filme:
“Primeiro filme europeu de Glauber, O Leão de Sete Cabeças é, ao lado de Cabeças Cortadas (Barcelona, 1969), uma das experiências cinematográficas mais alegóricas de Glauber Rocha, refletindo uma assumida influência do teatro épico-didático de Bertold Brecht e do cinema político à Godard, da execução recente de Ernesto ‘Che Guevara’ e das demandas por um cinema revolucionário-popular que vieram à tona a partir do maio de 1968 francês.”
O mistério para mim, de como essas demandas estético-políticas surgem no seio de uma sociedade capitalista como a francesa, lidando com os temas mais espinhosos do debate em torno da arte e da revolução, do comunismo, do maoísmo, da construção de uma nova sociedade, etc etc., permanece na minha mente. Ao assistir um filme como esse, surge um novo mistério: o de como uma sociedade como a brasileira produz um crítico mordaz como Glauber, que consegue se igualar aos grandes discursos da brasilidade (estou me repetindo, eu sei, mas é intencional), mas num nível crítico poucas vezes igualado (se é que alguém o fez). Só me dei conta disso, acho, depois de terminar de ver esse filme, pois ali vemos o diálogo frontal com o cinema político de Godard, naquilo que ele tem de mais politizado: o uso de alegorias (quase que dentro de uma tradição medieval-cristã, talvez) de uma história moral (lembremos de Dogville e do “brechtianismo” de seu diretor, e das formas tradicionais de narrativas morais nas quais o filme se baseia) para contar as mazelas do capitalismo, expor as suas contradições, trazendo à tona a nova arte revolucionária. Godard, em Vento do Leste, faz um manifesto maoísta para a arte revolucionária, proletária, e anuncia sua filiação claramente. Já Glauber, talvez vários passos à frente, usa e evoca esse tipo de discurso cinematográfico para 1) retomar o seu tema eterno, o da formação particular do povo brasileiro; e 2) reconstruir esse cinema revolucionário europeu de um novo ponto de vista terceiro-mundista (e no mesmo Vento do Leste vemos que essa proposta foi percebida, mas não muito bem digerida ou compreendida talvez). Já me alongo demais no que eu queria dizer, mais por entusiasmo com o tema do que por grande conhecimento. Acho que a contribuição de Glauber é a de sempre pensar a forma pela qual somos o que somos como um mal de origem. A nossa colonização, a nossa posição particular no capitalismo mundial, a forma pela qual se estrutura nossa sociedade, explica nossas mazelas. Mas há uma cena, em Leão de Sete Cabeças, paradigmática do que quero ilustrar. Os personagens, alegoricamente representando o colonizador imperialista, o chefe tribal local (estamos na África) e a visão latino-americana (representada por Hugo Carvana), conversam a respeito da necessidade de lutar contra o revolucionário que busca depor o colonizador branco, mas sem matar no povo a ilusão de que conseguiram a “liberdade”. Um regime republicano fantoche é então proposto. O chefe local se pergunta como efetivar essa liberdade sem luta. Hugo Carvana diz algo em seu ouvido, e ele entende: é a descolonização através da “amizade”. A solução latino-americana para a luta de classes, poder-se-ia pensar, algo talvez incompreensível para europeus. A amizade do regime das elites locais (capitalistas) e dos antigos colonizadores brancos para apaziguar os ânimos e deter os revolucionários (representados por um Che e por um Zumbi). Toda a discussão sobre o neo-colonialismo está aí resumida, e o dogmatismo de um cinema ideológico maoísta é amenizado, tornado mais crítico sob a luz da experiência colonial. Afinal, Glauber é um diretor que conhece o colonialismo de perto. O cenário desse filme em particular, a África, não é escolhido por acaso, pois ali temos lutas parecidas e ali a questão “terceiro-mundista” (termo já enterrado) também faz sentido. Cenas assim se repetem por todo o filme, e infelizmente não cito outras, pois me fugiram à memória, já fazem semanas que assisti o filme. Mas creio que consegui passar a questão fundamental que me interessou nesse filme. Sugiro essa questão como início de um debate sobre Glauber e o cinema daquela época, e não com análise fechada, pelas razões que já citei acima. A meu ver, temos em Glauber um “tropicalismo” verdadeiramente crítico, politizado e atento ao que ocorria no mundo. Temos ali doses potencializadas (weaponized tropicalism, eu diria em inglês) do que o tropicalismo poderia ter sido caso não houvesse uma ditadura militar no Brasil. Minha fascinação com esse debate cultural vem de muito longe, desde minha adolescência, e o momento atual é, para mim, riquíssimo e urgentemente necessitado de forças criativas como foram as mobilizadas por Glauber e outros em seu tempo. O fim do “lulismo” (ou “petismo”) romântico abre o caminho para novos (mais interessantes espero) rumos intelectuais para nosso país, e sobre isso, se puder, escrevo posteriormente.
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 00h36
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Não faria sentido colocar letras de música nesse momento, quando o que eu queria evocar eram as sonoridades, o piano sendo tocando melancolicamente, ao fundo um sopro obscuro e aconchegante. Estrelas brilham, piscam, marcando uma atmosfera de sonho e de nostalgia. Saudades de pessoas, de toques, de momentos. Saudades de sonhos que nunca mais serão possíveis. Saudades, e ao mesmo tempo respiro aliviado. Descanso, aguardando novas batalhas. Me angustio e me fascino com o que possa vir, e me emociono com o que passou. Algumas coisas definitivamente são feitas para serem vividas e esquecidas; algumas coisas, ainda que belas, não fazem sentido fora daquele tempo na qual existiram. Perdas e danos? Perdas e ganhos, num ciclo.
Categoria: confissões
Escrito por Komentarista às 16h04
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Desde que iniciei a blogar, em 2004, vem me interessando os discursos a respeito do potencial democrático que os blogs possuem. Não que blogar seja em essência algo democrático, mas é um canal de comunicação, aberto a todos com acesso à internet, e que pode ser usado para os fins mais diversos. Tenho tentando exercitar isso com meus blogs, buscando debater idéias e expor visões de mundo que eu acredito serem importantes e pouco explicitadas. Comento isso e dou a dica de algo que saiu no site Primeira Leitura, sobre um livro publicado recentemente nos EUA. Reproduzo parte da matéria abaixo:
A propósito de um novo livro de Hugh Hewitt, um dos mais populares blogueiros dos Estados Unidos, Hugo Estenssoro comenta a revolução anunciada pelo poder informativo dos diários pessoais publicados na internet, por meio dos quais milhões têm acesso grátis a visões muito diferentes das que oferece a mídia convencional. Uma revolução que, apesar do aviltamento da palavra no século 20, ainda significa democratização
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Escrito por Komentarista às 01h01
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Medo

Enquanto escrevo essas linhas, o empresário mineiro Marcos Valério depõe na CPI dos correios, e na Folha de S. Paulo fala-se do fim do governo Lula, de uma aliança com o PSDB em nome da governabilidade, do fim do "lulismo". Aqueles grupos desalojado do poder com a eleição de Lula se vêem, muito antes do que imaginavam, como os primeiros na fila para ocuparem a presidência. Déficit nominal zero (do eterno Delfim Neto), redução de gastos públicos, redução de impostos, desestatização. Mas por que isso tudo me dá medo? Bom, nos anos FHC ocorreu um desmonte pouco organizado da estrutura pública (estatal) de pesquisa no país. Eu sobrevivi e consegui avançar na carreira correndo atrás, mas muita gente não teve a mesma sorte, e todo o contexto intelectual e de pesquisa, do qual FHC é fruto, diga-se de passagem, promete, com a saída de Lula e do PT, continuar a desaparecer. Não que eu seja inimigo de um projeto de otimização dos recursos alocados para a pesquisa, ou queira aqui fazer uma defesa coorporativista de pós-graduados. Isso muitos colegas meus faziam, pedindo que o estado pagasse piscina, computador e todo tipo de mamata na universidade. Mas o que se viu naquele projeto tucano é a retirada de financiamentos, sem a proposta de projetos alternativos (afinal, o setor privado prefere comprar pesquisa importada e barata). Se FHC voltar, bom, aí sim eu vou ficar com muito medo, afinal, como fazer pesquisa num estado mínimo tucano e com a nossa elite capitalista escravocrata e colonizada? Afinal, é muito mais legal tomar champagne em algum hotel 5 estrelas da Europa do que montar uma fundação que apóie a pesquisa, por exemplo... Bom, viagens de um desinformado, talvez, mas que dá medo, isso dá.
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Escrito por Komentarista às 13h27
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Nunca gostei muito de perder as coisas. Talvez mimo demais, talvez egoísmo. Hoje já penso que tudo não passa de muita insegurança. Perder envolve mexer-se do seu (suposto) abrigo, tornar-se menos seguro. Perder amigos envolve perder referências. Perder um amor pode ser um trauma insuperável. Talvez preciso (precisemos?) de coisas que nos garantam que somos amados, queridos, desejados, necessários. Talvez nossa extrema dependência de significados para a vida (comer, dormir e trepar nunca são o suficiente para a maioria, parece; ainda que saibamos que pouca coisa além disso interessa de fato) nos torne tão dependentes de algumas relações. Relações sociais podem ser libertadoras, e podem ser prisões. São fonte de amor e de alívio, mas geram todo tipo de ansiedade ao mesmo tempo. Eu nunca abriria, há algum tempo atrás, mão de nenhuma relação, por mais medíocre e destrutiva. Insegurança extrema gera dependência, e ninguém está a fim de segurar a onda de ninguém. Não por maldade, é que o fardo de cada um já é pesado o suficiente sem ter que carregar o fardo alheio. Perder pode também ser um ganho: perder uma mala pode significar ter mais leveza no caminhar, mais força para enfrentar os perigos da estrada. Livrar-se de várias malas sem alça é, dessa forma, um alívio multiplicado. Conseguimos abrir mão das coisas, especialmente as desnecessárias, quando começamos a ter clareza do que realmente importa para nós. Antes disso, colecionamos todo tipo de objeto inútil, na esperança de estar preparado quando a necessidade para ele aparecer. Quando sabemos (ainda que não totalmente) o caminho a percorrer e o prêmio a perseguir, tentamos levar apenas o necessário, abrindo espaço para o novo na medida em que ele agrega, e não por outros motivos. Perdas causam ansiedade. Dor. Solidão. Agarro-me na esperança de que um sol mais brilhante me leve a paradas mais tranquilas.
Categoria: contos
Escrito por Komentarista às 15h15
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Mensalão
Queria muito escrever mais e comentar a atual situação política do país. Estamos todos reféns de um rato, Roberto Jefferson. É incrível ver que ninguém consegue se contrapor a ele, por estarem todos ali no mesmo nível de podridão. E deve cair a cúpula do PT. Fico atônito, mas empolgado com as possibilidades de melhora da situação política do país, do expurgo positivo que isso pode causar. Como uma febre de gripe. Mas os leitores já devem estar cansados desse tema, diariamente martelado pela mídia... Fica aqui marcada minha angústia.
Categoria: comentários diversos
Escrito por Komentarista às 09h31
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Sobre ser gay
Ainda sob o impacto de tantas paradas gays pelo mundo, e inspirado na recente aprovação da união civil entre parceiros do mesmo sexo na Espanha, quis deixar aqui essa nota sobre homossexualidade. Escrevo também por conta do diálogo que esse blog mantém com uma série de “blogs gays” (essa categoria é problemática, pois nenhum blog se limita a um assunto dessa forma, mas isso seria papo para outro post; chamo-os de blogs gays pelo fato de serem escritos por gays e por tratarem preponderantemente de assuntos ligados ao cotidiano e ao imaginário gay corrente). Lendo e conversando a respeito da condição gay no Brasil, sempre me incomodaram algumas opiniões, ditas e escritas por alguns indivíduos com os quais tenho contato, mas nunca quis entrar efetivamente na polêmica. Recentemente, a partir de algumas reviravoltas na minha vida pessoal e psíquica, por assim dizer, sinto uma maior necessidade de trabalhar isso, e esse post é apenas um pequeno sintoma disso.
Fico muito incomodado com a virulência de ataques feitos a gays assumidos, por parte de outros gays, a homossexuais “efeminados”, “caricatos”, “pintosos”, “cheios de trejeitos”, entre tantos argumentos que lemos por aí. O interessante é que esses ataques acontecem com muita freqüência entre os próprios gays, e não somente como homofobia por parte de heterossexuais. A questão sempre levantada é: esses gays perpetuam estereótipos de gays que não correspondem à realidade, ou que acabam por aumentar o preconceito contra os gays. Não acho esse argumento de todo errado, pois o papel de gay caricato a que somos limitados é bastante humilhante, e muitos gays assumidos realmente “compram” essa identidade efeminada como forma de vivenciar a sua sexualidade. O típico estilista/cabelereiro, ou o “gay Zorra Total/Praça é Nossa”. Não estou aqui querendo refutar esse argumento, mas olhar a questão de outro ângulo: alguns gays efeminados estão, pelo menos, tentando viver sua sexualidade de forma mais bem resolvida e menos clandestina. Tentam construir alguma forma de viver a sua vida que não seja restrita a encontros furtivos e anônimos.
Pela minha experiência pessoal, tenho percebido que os gays que mais atacam os efeminados são os que mais investem numa vida dupla. Sob o pretexto de fugir de estereótipos, acabam justificando para si mesmos a necessidade de viver uma vida escondida, às vezes até com namoradas e esposas de fachada, escondendo de todos a sua vida sexual-afetiva. Participam do mundo mais amplo por que não ofendem as sensibilidades heterossexuais, mas pagam o preço de serem sempre, em público, metade do que efetivamente são. No meu entender, essas pessoas não têm moral para criticar os gays que estão, pelo menos, tentando construir algum tipo de auto-estima para si próprios. Discordo da idéia que, para fugirmos do estereótipo do gay cabeleireiro, precisemos viver uma vida dupla. Ser discreto não é ser enrustido.
Aos que acham que podemos ser gays roqueiros, jogadores de futebol, presidentes do Brasil (e eu me incluo nesse grupo), digo o seguinte: se não concorda com o estereótipo, então seja algo diferente, ao invés de destruir o que outros tentam construir. Ao invés de levar sua vida dupla confortavelmente, enfrente (na medida do possível, afinal nem todos temos condições para bancar esse tipo de exposição) seus amigos, sua família, até seus empregadores, mostrando que ser gay não implica em ser efeminado, caricato, promíscuo. Construa ao invés de destruir o seu irmão (pois essas “bichinhas” são tão gays quanto vocês).
Não que a sexualidade precise ser algo público (e acho que isso precisa ser repensado especialmente nos movimentos gays atuais), mas eu acho fundamental a conquista do direito de sermos gays de forma normal, bem resolvida, sem que isso seja um entrave à nossa vida pública, sem que isso impeça que participemos plenamente do mundo. Acho importante a existência de espaços de convivência direcionados, como bares e boites gays. Só me recuso a achar que minha vida, pelo fato de ser gay, precisa ser restrita a estar todo dia ali, ainda mais se não me identifico com as atividades e conversas que ali ocorrem. Quero ter minha vida, meus amigos, meu trabalho, e ainda poder ter sexo e amor da maneira que me convém. E esse trabalho diário de mostrar ao seu irmão hétero, seu amigo hétero da escola, etc., de que ser gay é muito mais do que eles pensam, é uma força política poderosíssima. Nunca quis ser militante, pois meu trabalho é outro, mas me recuso a baixar a cabeça só pelo fato de ser gay. Acho muito mais interessante construir formas de ser gay publicamente de forma bem-resolvida, que fujam ao estereótipo do que passar dias e dias falando mal das bichinhas efeminadas. Para mim, esse é o próximo desafio a ser enfrentado numa época pós-parada gay.
Quem sabe assim nossas crianças, ao se apaixonarem pelo amiguinho da escola ou pelo vizinho, não precisem esperar para começar sua vida sexual fazendo “pegação”, sendo humilhados pelos que percebem sua condição. Quem sabe assim a perspectiva de vidas e projetos em comum não precisem ser mais uma ilusão, e a realidade do gueto gay, da vida noturna, do sexo fácil e da putaria generalizada seja apenas uma dentre várias opções de vida, e não uma necessidade a nós imposta.
Categoria: confissões
Escrito por Komentarista às 19h53
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