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Enfim, PhD

Ontem defendi, finalmente, minha tese de doutorado. Quatro anos de muita coisa legal, muito sacrifício, muita solidão principalmente. Perdi a conta dos babacas que me falaram "mas você fica em casa sem fazer nada o dia inteiro?" Agora estou livre, até certo ponto. Pelo menos o título ninguém me tira mais. Para comemorar a data, publico abaixo o editorial de hoje da Folha de S. Paulo, curiosamente adequado à ocasião:
"À primeira vista, inspiram otimismo os dados sobre a formação de pesquisadores no Brasil. Segundo os números mais recentes, em 2003 foram formados 8.094 doutores no país -cerca de 15% a mais do que no ano anterior. O projeto de reforma universitária apresentado pelo Ministério da Educação (MEC) prevê que metade das vagas do corpo docente nas universidades seja preenchida por doutores. E a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) considera que, em pouco mais de dez anos, 90% dos professores universitários poderão ter título de doutor. É bem diferente, contudo, a realidade que se apresenta aos pesquisadores quando saem da universidade. Sem experiência profissional, acabam preteridos pelas empresas. Como mostrou reportagem publicada por esta Folha na última quarta-feira, apenas 6% dos doutores não empregados em atividades de docência são absorvidos pela iniciativa privada. A alegação dos empregadores costuma ser a mesma: o custo e o risco do investimento em pesquisa são altos, e o retorno a curto prazo, incerto. Mais alarmante é a situação que os recém-doutorados encontram nas instituições privadas de ensino superior. Tendo em vista o salário mais alto a que teriam direito, muitos têm sido demitidos e substituídos por mestres. Daí o descalabro de professores que preferem esconder o título para garantir o emprego. Não há dúvida de que o aumento do número de titulações revela amadurecimento da produção de conhecimento no país, mas é preciso que as empresas estabeleçam uma cultura de estímulo à pesquisa, sem o que o desenvolvimento tecnológico do país continuará limitado. Da mesma maneira, há que se induzir à mais ampla presença de professores qualificados nas universidades."
Escrito por Komentarista às 20h32
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A Idade da Terra (um quase comentário)
Antes de começar, uma ressalva: hoje tive a chance de ver, na íntegra, o último filme de Glauber Rocha, A Idade da Terra (1980), mas não consegui ficar até o final. Perdi os últimos 50 minutos (de um total de 160) e, portanto, esse comentário é altamente prejudicado. Bom, saí por causa de uma gripe, e por não estar sozinho (não se deve fazer esse tipo de programa acompanhado mesmo!), mas valeu o primeiro contato com um filme bastante difícil. Bom, eu já tinha visto, num documentário sobre Glauber, que esse seria seu filme mais ambicioso e um dos mais imperfeitos por causa disso mesmo. Achei, dentro do que conheço de Glauber, mais um comentário seu a respeito da “questão civilizatória brasileira” (e esse termo é meu), talvez uma das grandes questões desse e de todos os seus filmes. Nesse filme em especial temos elementos de meta-cinema importantes, como os seus comentários aos atores durante as cenas, e até mesmo a sua aparição, enquanto diretor mesmo, por alguns segundos. Glauber usa aqui um recurso que eu não havia visto em outros filmes que vi: a repetição, até a exaustão, de algumas falas. Nas duas ocasiões que vi, antes de sair, era Tarcísio Meira o premiado com essas cenas especialmente cansativas. Mas achei interessante: enquanto Tarcísio repetia a sua fala, a cada vez com uma entonação diferente, mudando algumas palavras, acrescentando outras, víamos em progresso o processo criativo do ator, buscando talvez algum sentido para a fala, buscando compor o personagem, afinal, sabe-se lá quais elementos ele tinha antes de Glauber gritar “ação”! Num outro ângulo de análise, à medida que as falas se repetiam, nos cansamos da cena (“godardianamente” talvez?) e começamos a pensar em outras coisas que não o ator, que não a fala, que não o drama imposto pela música, pela câmera, pela figura de Tarcísio Meira (que já era uma estrela em 1980, acredito). Numa das cenas eu começava a prestar atenção aos pescadores ao fundo, ao cenário, à poluição boiando na baía de Guanabara. De novo Godard? O começo do filme é de impacto: uma seqüência longa de um sol nascente, tendo como cenário o Palácio da Alvorada. Brasília como signo do novo, de uma nova civilização (brasileira)? Alvorada de algo novo? Eu fiquei com isso na cabeça: de que esse filme foi uma tentativa de talvez ir mais adiante numa proposta de um novo homem, afinal o debate a partir dos anos 60 era a revolução, a mudança, a renovação. Acho que isso eu vi naquele documentário também. Pelo menos para mim, desde a infância, e nos meus delírios pseudo-hippies da faculdade, Brasília era esse signo do novo, ao mesmo tempo cósmico e humano, possível; a possibilidade concreta do novo.
Sobre a questão civilizatória: Eu achei interessante o começo do filme: vemos pessoas vestidas como selvagens, índios, numa cena um tanto orgiástica, usando penas, dentes e batucando tambores. As pessoas se tocam ritualisticamente, se beijam, se abraçam, numa quase convulsão. Vemos a evocação do bárbaro, do selvagem, do sexo, da orgia, de forças elementares. Logo em seguida, um corte abrupto e estamos no Carnaval de 1978. Nada gratuita essa associação: pensávamos estar vendo uma alegoria, atores encenando conceitos, suas vestes de penas e miçangas alegoricamente selvagens. E de repente estamos no carnaval, a alegoria real, a força da orgia que irrompe anualmente. Essa coisa mexeu mais comigo do que qualquer outra no filme, essa suposta associação que eu acho que ele fez. Afinal, como entender essa civilização brasileira, no que ela tem de bizarro, quando convive tão proximamente com essas “irracionalidades”? Em seguida vemos uma fala longa sobre o golpe de 1964, que arrepia nas suas similaridades com o que estamos vivendo agora, nas últimas semanas. Lula/Jango, sobre isso eu adoraria falar mais, mas não tenho elementos, e espero que o desfecho atual seja diferente e que avancemos nisso de forma a fugir dessa repetição da história.
E onde fica o povo? Glauber sempre se coloca essa questão, e eu nunca entendi sua posição. Ao mesmo tempo em que ele traz a questão para o centro da sua estética (e não somente da sua narrativa, por assim dizer), seu cinema não seria altamente elitista? Altamente divorciado do povo? Como nas cenas em que ele usa trabalhadores “de verdade”, interagindo com os atores. Enquanto os atores estão lá, fazendo cenas conceituais e alegóricas, o “povo” serve de cenário, de pano de fundo para tudo. A eterna inviabilidade brasileira: a intelectualidade/estado/”civilização” não consegue se comunicar, e se pensa no dever e no direito de falar em nome do “povo”. Pois quando o povo fala por si (Mojica talvez, em se falando estritamente de cinema), acha-se um discurso tosco, “primitivista”, ignorante. Lembro-me de uma cena do programa de televisão de Glauber (não me lembro o nome), na qual ele pega um popular qualquer e o enquadra na tela ao seu lado. Enquanto ele dispara sobre o povo, a revolução, a pobreza, o marxismo, etc., a pessoa fica lá muda, servindo de “espécime” de algo completamente alheio à dinâmica intelectual que move Glauber. Bom, isso tudo são especulações livres de alguém que acabou de chegar em casa saindo do filme. Peço perdão pelas injustiças que certamente cometi, como um não-especialista em Glauber. Mas a meu ver, e estando na situação em que estou, estou cheio de opiniões sobre esse assunto e acabo desabafando em outras áreas... Afinal não quero nem começar a falar de política científica aqui e do dinheiro estatal jogado fora todos os anos sem que o “povo” veja nenhum resultado; e eu no meio disso tudo....
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 01h09
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Nagasaki

Foto: jornalista norte-americano George Weller
Ando meio sem inspiração, então aproveito para dar uma dica que li no blog do Tiago Dória (link ao lado), a respeito de uma reportagem sobre Nagasaki, um mês após a explosão da bomba atômica, feitas pelo jornalista George Weller. Censuradas pelo exército americano, foram publicadas pelo jornal japonês The Mainichi Shimbun. O link para a reportagem é: [http://mdn.mainichi.co.jp/specials/0506/0617weller.html].
Abaixo reproduzo um pequeno trecho do texto, que me fez lembrar um documentário que mostrava cenas de filmes produzidos pelo governo americano dando dicas de segurança no caso de um ataque nuclear soviético. Me dava vontade de chorar vendo as dicas: esconda-se embaixo de uma mesa, com os braços sobre a cabeça, e espere alguns minutos. No trecho, e em vários dessa reportagem, vemos a perplexidade do jornalista com uma suposta "doença X", que vitimava as pessoas que escaparam da explosão inicial. Isso nos diz muito sobre o poder público, seus interesses, sua confiabilidade, e mesmo a confiabilidade (ou, seria melhor dizer, a infalibilidade) da ciência, outro tema central a esse blog/autor.
NAGASAKI, Sept.9 (cdn) -- The atomic bomb's peculiar "disease," uncured because it is untreated and untreated because it is not diagnosed, is still snatching away lives here. Men, woman and children with no outward marks of injury are dying daily in hospitals, some after having walked around three or four weeks thinking they have escaped. The doctors here have every modern medicament, but candidly confessed in talking to the writer - the first Allied observer to Nagasaki since the surrender - that the answer to the malady is beyond them. Their patients, though their skin is whole, are all passing away under their eyes. Kyushu's leading X-ray specialist, who arrived today from the island's chief city Fukuoka, elderly Dr. Yosisada Nakashima, told the writer that he is convinced that these people are simply suffering from the atomic bomb's beta Gamma, or the neutron ray is taking effect. "All the symptoms are similar," said the Japanese doctor. "You have a reduction in white corpuscles, constriction in the throat, vomiting, diarrhea and small hemorrhages just below the skin. All of these things happen when an overdose of Roentgen rays is given. Bombed children's hair falls out. That is natural because these rays are used often to make hair fall artificially and sometimes takes several days before the hair becomes loose." Nakashima differed with general physicians who have asked the regiment to close off a bombed area claiming that returned refugees are infected from the ground by lethal rays. "I believe that any after effect out there is negligible. I mean to make tests soon with an electrometer," said the specialist.
Escrito por Komentarista às 03h56
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Viva o fracasso
Putz, tinha escrito um post enorme e confessional sobre meu momento recente. Graças ao UOL, perdi tudo. Estou sem muito saco para reescrever... Mas queria deixar o momento marcado, uma pequena comemoração, ainda que auto-celebratória. Meu momento atual tem sido marcado por uma série bastante grande de fracassos, sejam eles amorosos, profissionais, intelectuais. Me vejo hoje no cenário que eu imaginei ser o pior possível para mim, e do qual me protegi a todo custo. Concretizado tal cenário, me vi livre de um monte de inseguranças fantasiosas. Hoje tenho muitas inseguranças e ansiedades; mas elas são reais, e eu tenho muitos meios para contorná-las, com paciência e determinação. Sempre me defendi do mundo atrás de uma couraça de intelectual. Sempre escondi minhas fraquezas por trás dessa imagem de inteligente e culto. Isso me enfraqueceu nas outras partes do mundo com as quais preciso lidar. Ultimamente tenho sido forçado a encarar isso, e tem sido doloroso e transformador. Mas acredito que nunca mudamos nada a não ser quando a vida nos força a isso (que me desculpem os analisados de plantão). Hoje tenho a leveza de não saber direito para onde estou indo, onde vou morar, onde vou trabalhar, de não ter tantas certezas de como será minha vida. E tenho uma melhor noção das minhas armas, melhorei minha pontaria, parei de gastar tanta munição à toa. Nos últimos anos, esse tem sido o momento mais importante, e sou grato por ele.
Categoria: confissões
Escrito por Komentarista às 02h36
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Viva Roberto Jefferson
O depoimento hoje do presidente do PTB é algo histórico, com certeza, por revelar com clareza inédita os recônditos da podridão que infesta a política brasileira. Ao mesmo tempo, vivemos um momento único, talvez tão ou mais importante desde o impeachment de Collor, no qual vemos a oportunidade de melhorar e ajustar a nossa democracia de bananas. A meu ver, isso independe de o PT, ou mesmo Lula, serem considerados culpados. Que caiam as máscaras de um partido, outrora revolucionário; que caia a ilusão de que o povo subiu ao poder com a eleição de um operário. Acreditar no nhém-nhém-nhém dos publicitários, da “esperança que vence o medo”, é empobrecer a reflexão e cair em tentações maniqueístas que nada explicam. Acuado por acusações de que participava em esquemas de corrupção nos Correios, Jefferson, que seria servido de bandeja, como bode expiatório da corrupção, resolve morrer atirando, o que é excelente para todo mundo, especialmente para a democracia. Explico: no Brasil, não há muita experiência com a democracia de fato, pois os mecanismos por trás da democracia republicana não funcionam corretamente. Especialmente um princípio importantíssimo, inscrito na Constituição norte-americana, os checks and balances. Traduzido, esse termo significa que a divisão do estado em três poderes tem o sentido de criar um equilíbrio (balance) a partir do contraponto, ou contraposição (checks) entre os três poderes. Cada poder tem certa autonomia para que possa (supostamente) fiscalizar o outro, tornando o sistema assim melhor através da concorrência. Esse sistema é interessante, pois é imbuído de um realismo saudável: provavelmente as pessoas de um poder estão sujeitas a corrupção e abusos, e, portanto, é saudável que haja formas de controle, mesmo no nível mais alto. No Brasil, tenta-se a todo custo deturpar esse sistema, o que na verdade é desnecessário, pois a desigualdade social faz esse papel. Uma elite sócio-econômica governa o país a 500 anos e o poder não precisa ser compartilhado. Com a eleição do PT vemos, pela primeira vez na história do país, provavelmente, algum esboço de um sistema relativamente concorrencial. Ou, no mínimo, o vislumbre da possibilidade de grupos de poder diversos da elite tomarem o poder de forma democrática. E está aí o valor histórico da eleição de Lula: o de causar esse impacto simbólico, ao mesmo tempo prático, da ascensão de um grupo de poder advindo da “maioria”. Os efeitos disso começam a aparecer agora: a disputa feroz pelo poder, a partir do loteamento do estado pelo PT, causa fissuras em acordos centenários, de convivência entre diferentes elites moribundas. Não penso que saberemos, pelo menos no curto prazo, os reais motivos de Jefferson; ou da sua calculada defesa de Lula; e da verdade toda por trás da corrupção no Congresso. O que me dá esperança de fato (e podem me chamar de um romântico idealista) é ver que, a partir do momento em que temos, de fato, algum tipo de concorrência pelo poder, em brigas como essa, nas quais acaba-se por tornar públicas falcatruas como o “mensalão”. Na briga de gangues que é o atual escândalo, quem pode acabar ganhando algo (se de fato cabeças rolarem) é nossa democracia. A não ser que PT e PSDB façam um acordo de cavalheiros, como já foi insinuado, pondo fim a uma disputa que poderia nos levar adiante na democratização (pois jamais tivemos algo como democracia por essas terras). Um acordo mais interessante, e a meu ver fundamental no nosso atual momento político, seria um onde ambos esses grupos, representantes de uma elite capitalista e democrática, deixassem as CPIs incriminarem os chamados “representantes do atraso”, nos termos de Fernando Henrique, e deixasse o caminho livre para a criação, finalmente, de uma democracia burguesa e capitalista no Brasil. Não vou nem entrar na questão do socialismo, antiga bandeira do PT. Mas um capitalismo minimamente concorrencial e moderno já faria maravilhas ao nosso país, ajudando, pelo menos, a distribuir a renda um pouco melhor.
Categoria: comentários diversos
Escrito por Komentarista às 01h23
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A pessoa é para o que nasce (Roberto Berliner, 2005)
Ainda em debate com Marcos Felipe (http://7arte.zip.net; nos comentários do blog dele falei algumas coisas sobre cinema documental), gostaria de comentar a respeito desse documentário, que assisti há uns dias atrás. O filme, filmado ao longo de alguns anos (se me lembro bem, começa em 1998 e vai até 2002), fala sobre três irmãs cegas que tocam ganzá (um instrumento que para mim parecia um chocalho) e cantam nas ruas de Campina Grande, Paraíba, pedindo esmolas. Aparentemente, as irmãs são objeto da curiosidade da mídia faz há muito tempo: o filme mostra imagens das três, filmadas nos anos 60, infelizmente descontextualizadas, além de reportagens das TVs locais a respeito das irmãs. Mas algumas coisas me tocaram no filme em especial, que têm a ver com o tema que levantei no blog do Marcos: o olhar do outro e a relação da pessoa que filma com a pessoa que é filmada. Essa relação foi resolvida de forma extremamente sensível e inteligente nesse filme em particular. O cineasta não se deixou levar por armadilhas muito presentes nas representações mais comuns a respeito do folclore brasileiro e a sua relação com a cultura de massas industrial: as de um olhar caricatural, que supostamente encontra uma pérola em meio à pobreza e ignorância do “povo”. Era esse tipo de documentário que eu pessoalmente esperava: mais um cineasta do “sul” que, explorando o subdesenvolvido nordeste, ilumina o “Brasil profundo”, apelando para um sentimentalismo facilmente vendável em cinemas e televisão. A meu ver a história das três irmãs tem tudo para se encaixar nesse padrão, mas o diretor foi muito além. O filme é quase auto-reflexivo em alguns momentos, quando por exemplo analisa o sucesso que as irmãs alcançam devido à própria filmagem (sendo convidadas para um festival em Salvador, por exemplo), e a sucessiva volta à triste normalidade. O filme retrata a visão caricatural que a elite têm do próprio país em depoimentos feitos durante o festival de Salvador: criou-se um hype em torno das três, e pessoas comentavam o quão lindo tinha sido ouvi-las cantar, o quão “raiz” elas eram, etc... Em cenas brilhantes, o diretor mostra que podemos direcionar o olhar para a reflexão ao invés de confirmar estereótipos. Um exemplo ótimo disso foi numa cena na qual Gilberto Gil está no palco com as três, e incita-as a cantar para a platéia, com um tom de voz paternal. A mais falante das irmãs, uma espécie de líder, reclama que sua voz não está saindo, o que é verdade, pois o microfone está nas mãos de Gil. Assim que isso é sanado, ela toma as rédeas do palco, faz piadas, e deixa Gilberto Gil meio sem jeito, pois a caricatura mostra que tem voz própria, e que queria mais é apresentar-se, fazer música, e falar por si. Esse investimento do diretor em mostrar que elas são sujeito, e não meramente curiosidades ou anomalias, confere uma beleza rara ao filme. A decisão do diretor de incluir no filme o desejo dessa irmã líder por ele de novo tem esse mesmo efeito, ao meu ver: dá voz ao objeto filmado/analisado, e reflete sobre a confusão entre quem faz o documentário e quem é observado, um tema central na Antropologia. Algumas cenas lindas também buscam uma representação visual da cegueira, um paradoxo interessante a ser pensado e analisado num documentário sobre três cegas. Acabo de ler que esse filme levou o prêmio de melhor longa no 15º Cine Ceará; e com todo mérito!
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 17h08
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No calor dos acontecimentos
Hoje acordamos todos, aqui no Brasil, com uma bomba: uma entrevista, na capa da Folha de S. Paulo, na qual Roberto Jefferson (presidente do PTB, ex-chefe da tropa de choque de Collor) acusa o PT (o maior partido de esquerda da América Latina?) de pagar uma "mesada" de 30.000 reais a cada deputado que votasse a favor do governo. Um baque, cujas repercussões se desenrolam a olhos vistos enquanto eu tento acordar, tomar café, responder emails, almoçar, e começar a trabalhar. O lado bom da internet é poder seguir, passo a passo, o desenrolar dos acontecimentos. O lado ruim é que ficamos presos a isso, como numa novela interminável. Ontem, antes de dormir, assisti uma entrevista na Bandeirantes, na qual José Genoino (atual presidente do PT) defendia o governo', de forma aparentemente lúcida, das acusações de corrupção envolvendo Roberto Jefferson e os Correios (sobre isso, ver matérias sobre a CPI dos correios). Fiquei feliz ontem, por ver uma pessoa pública, que sempre considerei, fazer a defesa da sua atuação. Nunca fui petista, mas votei muitas vezes no PT. Mas quem lê esse blog sabe que já comentei várias vezes a respeito do perigo em ficar detonando, sem motivos sérios, a atuação de Lula e do PT, igualando todos os políticos como escória. Sempre quis manter minha fé no momento atual como um de melhora, ainda que tímida e limitada. E isso fica cada vez mais difícil, pois, nas palavras de Franklin MArtins (em sua coluna no Jornal Hoje, da Globo), o "homem bomba" Roberto Jefferson resolveu explodir de vez, atirando para todos os lados. Não se pode deixar de comemorar tal fato, pois episódios parecidos levaram a momentos grandiosos da nossa política recente, como o impeachment de Collor. Mas o impeachment de Lula (ver blog de Ricardo Noblat, link ao lado), ou algo parecido, seria muito mais uma enorme decepção com o mundo e com a política. O perigo é a perda da fé nas instituições democráticas, o que, numa república de bananas como a nossa, abre caminho para soluções de exceção. Algo que ocorria até na Grécia, diga-se de passagem, e está ocorrendo na democracia norte-americana (algo sobre o qual sempre comentei aqui também). Ainda é cedo para saber o que irá acontecer. Mas podemos talvez acender o alerta amarelo: desde as denúncias de corrupção em Roraima, envolvendo pagamento de mesadas, esse tema tem sido amplamente divulgado, e vive-se um clima de revolta no país como há muito não se via. Uma denúncia tão séria, envolvendo o PT, num contexto onde ao PSDB (principal partido da oposição) interessa que o "circo pegue fogo", as coisas podem degringolar muito facilmente. Por razões obscuras, Jefferson, em sua entrevista, preserva a imagem de Lula; mas esta está manchada de forma inevitável já há algum tempo. Escrevo isso por estar estupefato e sem saber o que pensar, rezando para que a coisa se resolva da malhor maneira possível...
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Escrito por Komentarista às 14h58
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E o UOL volta a funcionar...
Foi só eu começar a reclamar que o UOL deu um jeito de arrumar a casa e eu poder postar normalmente aqui no blog... Já estava me animando para mudar de endereço, mas enfim, melhor continuar aqui, com o mesmo link. Tanta coisa para se comentar, mas eu estou sem energias; meu cérebro está com processos demais "rodando", e não tenho mais memória RAM disponível. Posso mencionar alguns filmes que eu não gostei: Filme Falado, de Manuel de Oliveira, e Melinda e Melinda, de Woody Allen. Achei o Manuel de Oliveira, pegando somente a dramaturgia e as falas, bastante pedante e eurocêntrico. Todo aquele papo de civilização, como se a Grécia fosse o ápice do desenvolvimento humano. Nas partes em que comenta-se o Egito, por exemplo, o olhar é totalmente o do colonizador. Aliás, ouso dizer que todo o olhar do filme é assim: como o de um turista europeu. Assistimos aos cenários (pois o turista experimenta a cultura como um cenário de teatro, ou como um filme de Hollywood) grandiosos em locações exuberantes ao longo do Mediterrâneo, mas as culturas se sucedem rapidamente. Subimos e descemos do navio sem tempo para reflexão, além de alguns poucos papos pretenciosos com figuras esquisitas, como o padre ortodoxo e o capitão. Aliás, sempre acho que John Malkovitch rouba a cena, e aqui não achei diferente. Sobre o Woody Allen, achei também um tanto "desconjuntado", meio colagem. A parte supostamente dramática estava mais engraçada do que a parte cômica! Se o filme se propôs a fazer essa comparação, não entendi o intuito. Bom, entendo que não posso cobrar do filme algo que é a minha intenção, e tudo que falei acima pode ser descartado com base nesse argumento. Quanto ao Manuel de Oliveira, fico sempre confuso, achando que na verdade sou eu que não entendi a sua poética, da mesma forma que demorei anos e anos para tirar alguma coisa de Glauber ou Godard. O tempo dirá!
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 15h30
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Parada Gay 2005
Como estou ocupado demais para escrever algo original, mas com vontade de deixar pelo menos algo registrado sobre a Parada Gay 2005, compartilho com vocês um pedaço de um texto excelente de um amigo, que diz nas palavras dele mais ou menos o que eu penso sobre isso tudo. 2005 foi o ano em que a NET participou da parada, em que a South African Airways patrocinou outro carro, em que a indústria do turismo e o poder público acordaram de vez para o impacto econômico desse tipo de evento. Se a população gay, lésbica, bissex e etc. vai se beneficiar mais com isso, ou saber tirar proveito dessa situação, só o tempo dirá. Veja o texto completo em http://dbblog.blogspot.com/. Como o blog do UOL é uma enorme merda que não funciona, não consegui colocar a imagem que ele criou imitando o Itaú, mas vejam a imagem no blog original, e no meu blog do Yahoo: http://360.yahoo.com/marco_sampa.
"Muito se discutiu nos últimos dias a perda do significado político da Parada do Orgulho Gay. Muito se criticou sua conversão em farra popular sem conteúdo. Muito se condenou o lado comercial do evento, a injeção de dinheiro que o turismo rosa deu na cidade. Bullshitagem pura. Dois milhões de pessoas nas ruas, um quinto da população da cidade, praticamente todos maiores de idade e eleitores. Isso não é mobilização? Mostrar para um rapazinho de 15 anos, perdido no interior do país, que ele não precisa cometer suicídio por ser gay, que existem outros milhões iguais a ele fazendo a maior festa por aí, como visto em todos os noticiários. Isso faz diferença? Mostrar que levamos nosso dinheiro para onde formos, porque temos um poder econômico que também deve pesar na balança das negociações dos nossos direitos. Isso importa? Porra, claro que sim! Afinal, leis não são feitas justamente para atender aos principais grupos econômicos? E não foi utilizando-se do mesmo poder político e econômico que um punhado de evangélicos tentou aprovar no RJ uma lei que obrigasse o Estado a subsidiar a “conversão” de homossexuais? Não acho no geral que os gringos sejam exemplo pra muita coisa. Muito pelo contrário. Mas que as bichas de lá sabem como usar todo o seu poder para conquistar direitos e até mudar consciências, nem que seja através do bolso e do marketing bem feito, isso elas sabem. Uma pena que, como já é sabido, aqui embaixo tal sucesso não seja tão bem visto. E que o imediatismo burro seja sempre a desculpa para provar que nada pode dar certo, que nada vai mudar. Quem despreza a Parada, esquece que há dez anos mal se falava em direitos dos gays e que um projeto de união civil era impensável. Hoje, estamos mais próximos dele do que nunca. E isso se deve sem dúvida à nossa recente, contínua e sempre crescente visibilidade. Principalmente em paradas como a de São Paulo, novelas, bigbrothers ou nas ruas das grandes cidades."
Categoria: comentários diversos
Escrito por Komentarista às 12h30
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