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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos [komentarista@uol.com.br]
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Quanto custa ou é por quilo? (Sergio Bianchi, 2005)
Há alguns dias fui ver o último filme de Sergio Bianchi, e gostaria de compartilhar algumas impressões. Somente impressões, pois me acho um tanto incapaz de efetivar alguma análise do que vi, pois não sou teórico de cinema e nem um especialista em questões raciais ou de entidades assistenciais. No filme, penso que Bianchi conseguiu um argumento muito melhor do que em Cronicamente Inviável, um filme que eu particularmente não gostei. Achei este de uma crítica vazia, que busca de chocar sem nenhum conteúdo crítico; uma exposição de desigualdades e de incoerências que compõem nossa sociedade brasileira apenas pelo mero fato de expô-las. Nesse filme Bianchi parece engajado em argumentar algo de mais profundo, e consegue até refinar um certo método de forçar o olhar do expectador a encarar fatos e sentidos que, de tão banais e cotidianos, nos são alheios. Em outras palavras, ele consegue chamar o expectador à reflexão de uma maneira muito mais importante que em seu filme anterior, ao tentar expor as associações e sentidos que estão potencialmente ocultos nas nossas relações banalmente e cotidianamente desiguais. No começo do filme isso é feito de forma interessantíssima a partir de comparações entre relações sociais atuais e eventos da época da escravidão. Ao comparar fatos banais do nosso cotidiano com uma realidade temporalmente distanciada, o filme consegue causar um estranhamento do expectador em relação à banalidade dessas desigualdades, reconstruindo o nosso olhar com relação a fatos contemporâneos. Um exemplo é quando o filme expõe, logo no começo, o caso de uma negra alforriada, proprietária de escravos, que ao ser roubada busca impor o seu direito junto ao senhor (branco) que a roubou, em posse de todos os documentos legais que lhe garantiam a posse do escravo furtado. Essa mulher alforriada acaba presa por causar distúrbios na vizinhança, levando a uma reflexão de vários níveis: a ineficácia dos nossos trâmites jurídicos e a incapacidade da lei de garantir os direitos dos cidadãos frente a realidades mais prementes como a suposta inferioridade dos negros, reiterada insistentemente mesmo quando estes dispõem, em teoria, de prerrogativas legais inegáveis. A suposta inexistência de leis esconde, na verdade, a inexistência de uma ordem jurídica per se, que pressuporia cidadãos iguais perante a lei. As divisões sociais desiguais baseadas na raça, por exemplo, adquirem predominância e as leis escritas são ignoradas quando não correspondem à “ordem natural” das coisas. Um exemplo bastante atua disso é a franqueza de Severino Cavalcanti ao defender a contratação de parentes: a ordem jurídica que prega a igualdade e a impessoalidade do serviço público é letra morta frente ao direito de um político de empregar seus parentes mais próximos. A impunidade com que Severino conta é a confirmação cabal da efetividade dessas leis não escritas, que regem de fato a ordem social brasileira. Mas o filme, após esse início, se complica num emaranhado de metáforas, de linguagens diferenciadas (misturando uma narrativa linear com outras sub-narrativas, com mini-documentários, etc.). Diversas questões são abordadas, com resultados desiguais: racismo; o assistencialismo; a indústria de entidades sociais que desviam verbas públicas e se aproveitam da miséria para lucrar; a corrupção endêmica na sociedade que serve, de fato, para reiterar desigualdades centenárias. Se eu pudesse sugerir algum fio de análise, diria que o filme mostra de forma interessante que há uma lógica, coerente ainda que perversa, por trás da infinidade de jeitinhos que conforma a nossa república de bananas. O filme, diferentemente do anterior, chega a insinuar resistência e formas de revolta, que, a meu ver, infelizmente subestimam a capacidade da sociedade de reagir frente ao racismo e à corrupção na política. Com todos os problemas, achei um filme bastante importante, que merece ser visto. Aos apressados que saem correndo antes do letreiro terminar, sugiro que esperem alguns minutos após o final do filme antes de saírem.
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 19h29
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Passeando por São Paulo
"Ria, e o mundo rirá com você; chore, e você irá chorar sozinho"
Essa frase é do filme Old Boy, que assisti ontem. Um filme koreano cheio de socos no estômago. Como esquecer a cena da lula viva no restaurante japonês? Se bem que o que é chocante para mim pode ter um significado completamente diferente para um povo que considera cachorro uma espécie comestível. Eu odeio ser antropólogo! Mas eu adoro ser antropólogo. Saindo do filme me lembrei daquele outro filme que vi no sábado passado, Brown Bunny, um soco planejado, calculado, que demora uma hora e meia para ser desferido e que me deixou tonto, vendo estrelinhas, como nos desenhos. Até agora não consegui digerir direito aquilo. Saio do filme koreano, como sempre saio de filmes em geral, com a cabeça fervilhando de coisas; saio meio que ainda dentro do filme. Sou daqueles que se assusta com filme de luta e de catástrofe, cujo coração dispara quando o diretor demanda que dispare. Vai ver é catarse, sei lá. Descendo as escadas, uma muvuca de gente me aguardava: havia uma pré-estréia do filme do Bianchi (aquele do Cronicamente Inviável). Câmeras, taças vazias de champagne, gente de televisão. Cumprimento um conhecido que estava ali entrevistando os atores para um canal de TV a cabo. Nunca achei que eu teria conhecidos nesse ramo, mas nessa cidade não é tão difícil. Vejo aquela atriz, a do cartaz do filme, com os cabelos completamente brancos, e com um rosto de menina/madame. Fiquei pensando na sua personagem, possivelmente uma socialite à la Hebe Camargo, caminhando pelas favelas como uma Marie Antoinete, ofertando brioches de mandioca aos moradores. Não vi o filme, mas vi o cartaz, e pelo trailer "dá pra sentir o clima". Me lembrei agora do trailer de Terra em Transe, a nova versão restaurada, e da minha emoção em ver aquilo. Não descobri se o trailer é de época ou é novo, mas minha emoção, essa foi completamente nova. Nunca gostei de Glauber nem desse estilo de cinema "cabeça", assim como não gostava de arte nem de museus há poucos anos atrás. Quem diria! Depois de Godard, nunca mais vi Glauber com os mesmos olhos, e mal posso esperar para rever Terra em Transe, desta vez no cinema. Saindo do shopping acabei numa casa noturna/casa de shows, ali perto mesmo. Não conseguia ir para casa. Enquanto segurava uma garrafa de cerveja numa mão, um copo na outra, e escutava um jazz gostoso mas mal-tocado, pensei no quão certo estava aquilo tudo. De novo, nunca gostei de jazz, nunca consegui me relacionar com esse estilo de música. Engraçado isso, pois meu pai ouvia muito dixieland quando éramos crianças. Até que um dia eu vi Naked Lunch do Cronenberg... E depois disso nada seria o mesmo! Eu não gosto de cerveja, nem de casas como aquela, mas estava tudo tão certo, pelo menos naquele momento. Talvez seja só solidão mesmo, isso tudo passa. Eu pensava por que bandas como The Smiths ou Legião Urbana não mexiam comigo, ou no porque de estar ali e não em outro lugar onde as pessoas me conheciam; ou no porque de não ter ido naquele bar da Vila Madalena, naquela baladinha de aniversário para qual fui convidado. Se soubesse essas respostas, possivelmente não estaria escrevendo essas coisas aqui. Ando meio perdido e sem inspiração, mas Mr. Hankey me salvou uma noite dessas, sozinho em minha casa. O jeito é esperar um pouco e continuar na luta, pois não há realmente outro remédio.
Categoria: confissões
Escrito por Komentarista às 16h11
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Lésbicas e a maternidade
Em apoio a uma grande amiga, publico aqui parte de uma matéria que saiu sobre ela. Para quem quiser ler a matéria inteira, clique em

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Pesquisa de doutoramento mostra que discriminação da sociedade faz com que mulheres enfrentem pressões de toda ordem
Mães lésbicas são vítimas de preconceitos que vêm do berço
MANUEL ALVES FILHO
As mulheres que articulam a maternidade com a homossexualidade tornam-se socialmente vulneráveis, visto que a sociedade considera as duas práticas como incompatíveis. Não raro, elas enfrentam uma série de pressões e se vêem forçadas até mesmo a renunciar à sexualidade ou à profissão para poder exercer o direito de educar seus filhos. Estas constatações fazem parte da pesquisa de doutoramento da cientista social Érica Renata de Souza, apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. No trabalho, a especialista promoveu um estudo comparativo dos efeitos dessa articulação nas regiões metropolitanas de Campinas e Toronto, no Canadá. Embora a questão da diversidade sexual seja tratada de forma distinta nos dois países, Érica identificou pontos de aproximação entre as lésbicas brasileiras e canadenses. "De modo geral, eu diria que elas são muito corajosas por lutarem por seus direitos e desejos, independente das estratégias e dos recursos disponíveis".
Categoria: comentários diversos
Escrito por Komentarista às 02h20
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Continuo sem inspiração...

Escrito por Komentarista às 14h29
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Categoria: outros
Escrito por Komentarista às 09h41
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Gostaria de escrever um pouco mais sobre o tema do post anterior, para esclarecer melhor algumas coisas que pensei quando postei aquilo. Quis escrever mais também por causa do mini-debate nos comments. Bom, a notícia sobre feromônios e os cérebros de homens, mulheres e homossexuais foi amplamente divulgada em todos os meio jornalísticos a que tive acesso desde que ela saiu. O mais interessante foi a divulgação nos circuitos de notícias científicas, que geralmente publicam coisas de política científica nacional e pesquisas realizadas aqui ou de grande impacto. Fico pensando no poder persuasivo que essas notícias a respeito das diferenças biológicas entre as pessas, e no porquê delas serem tão comentadas. Bom, um motivo é óbvio: sexo é fundamental na vida, além de ser muito gostoso. Fora comer e dormir, não conheço coisa que proporcione tanto prazer. Outro motivo é que, pela sexualidade, organizamos muitas das nossas relações com as pessoas. Nos aproximamos de pessoas que nos atraem sexualmente, mesmo que essa relação possa envolver outros elementos, por exemplo. No caso da homossexualidade, busca-se a todo custo encontrar alguma diferença que marque biologicamente o homossexual como um ser diferente de qualquer outro. Seja pela genética (são constantes as notícias sobre experiências que buscam o 'gene gay') ou por diferenças fisiológicas (cérebro, etc.), a ciência tem buscado explicar uma suposta singularidade genética desse grupo em particular. O conteúdo da minha denúncia anterior, e que tenho tentando fazer em outros posts, é chamar atenção para essa tentativa constante de encontrar na biologia particularidades para esse grupo. As razões por trás disso podem ser tanto louváveis quanto desprezíveis: muitos biólogos gays, por exemplo, sinceramente acham que buscar por um 'gene gay' possa auxiliar na luta contra o preconceito. Afinal de contas, assim estaria provado que esta é uma condição "natural". Sexólogos da virada do século XIX para o XX fizeram isso, criando o termo "homossexual" e lutando para proteger esse 'ser' que não era devasso segundo eles, mas apenas vítima da biologia. Bom, estamos no século XXI e ainda estamos fazendo isso, buscando tratar homossexuais como figuras biologicamente distintas das outras. Não quero aqui debater a afirmação de que somos todos determinados pela genética; sobre isso escrevi toda uma tese de doutorado e seria tedioso explicar o que penso aqui. O que me cansa, como falei antes, é ver que os gays/homossexuais estão sempre sujeitos a serem singularizados, separados, classificados de forma especial. Qualquer pesquisa, por mais discutível que seja, mas que consiga de alguma forma avançar essa tese, logo ganha um enorme destaque. Ninguém procura, por exemplo, o gene da preferência por alguns homens pelo sexo anal com mulheres, ou pelo gene que explique por que tantos homens curtem ver duas mulheres se beijando. Acha-se isso tão normal a ponto de não merecer pesquisa ou explicação. O que eu quero dizer é o seguinte: esse tipo de pesquisa, por mais científica que se pretenda, incorre no risco de criar um subgrupo dentro dos seres humanos, o que acaba por naturalizar um preconceito. Logo teremos testes genéticos para identificar todo tipo de característica humana, e teremos mães querendo abortar seus filhos pelas razões mais esdrúxulas: por serem baixos, terem olhos pretos ou serem potencialmente 'gays'. Enfim, o que não podemos deixar de ter em mente é o preconceito que está por trás dessa cientificidade. Como pesquisador, como parte desse esquema todo de alguma forma, penso ser um dever participar desses debates, nem que seja com comentários inflamados num blog isolado. Afinal, somos acusados sempre de ser seres inúteis, que lêem o dia inteiro, acumulando erudição para não fazer nada com aquilo além de alimentar nosso próprio ego. Por trás desse post há também o desejo de mostrar que podemos, sim, ser úteis: na guerra de idéias da sociedade podemos influenciar opiniões e tentar mudar, nem que seja um pouco, as desigualdades de poder que regem nossa vida.
Categoria: comentários diversos
Escrito por Komentarista às 01h31
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A notícia abaixo saiu no UOL, seção "últimas notícias". As tentativas de explicar a orientação sexual pela via da biologia são antigas, acontecendo desde pelo menos o nascimento da Biologia como disciplina autônoma. Se no final do século XIX essa explicação biológica era uma certeza científica, após os anos 1960 houve uma reação "culturalista" a esse tipo de explicação. Em alguns círculos, ela permanece tabu. Não vou tomar posição pró ou contra a explicação biológica para a sexualidade, que ganha cada vez mais força, mas vale ficar atento para as possíveis conseqüências políticas desse tipo de pesquisa, coisa que sempre comento nesse blog.
09/05/2005 - 19h30 Cientistas dizem que olfato também indica preferência sexual
Washington, 9 mai (EFE).- A preferência de uma pessoa pelo cheiro do corpo de outra depende, em parte, do gênero e da orientação sexual de ambas, segundo dois estudos divulgados nesta segunda-feira que apontam bases biológicas para a homo e a heterossexualidade.
Estes estudos aparentemente dão mais argumentos aos que, no debate sobre a homossexualidade, sustentam que essa é uma característica biológica e não uma conduta escolhida, como afirmam aqueles que condenam a homossexualidade por razões morais e religiosas.
A revista Proceedings of the National Academy of Sciences publicou um estudo, dirigido por Ivanka Savic no Instituto Karolinska, em Estocolmo, sobre as reações de homens e mulheres heterossexuais e de homens homossexuais ao cheiro de hormônios sexuais masculinos e femininos.
Os hormônios conhecidos como ferormônio causam respostas como a defesa e o desejo sexual em muitos animais. Em 2000, pesquisadores americanos disseram que já tinham identificado o gene que comanda o receptor humano dos ferormônios no nariz.
Segundo o estudo, a exposição à testosterona, o hormônio sexual masculino, causou resposta nas partes do cérebro envolvidas na atividade sexual tanto nas mulheres heterossexuais quanto nos homens homossexuais, mas não nos homens heterossexuais.
Quando todos os sujeitos do estudo foram expostos a cheiros como alfazema ou cedro, todos os cérebros reagiram somente nas regiões que controlam os cheiros.
Por sua vez, os neurocientistas Charles Wysocki e Yolanda Martins, do Centro Monell de Sentidos na Filadélfia (Pensilvânia), usaram para seu experimento amostras de suor tiradas de axilas de 24 doadores de diferentes gêneros e orientações sexuais.
Depois, os pesquisadores pediram a 82 homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, que indicassem suas preferências.
De acordo com o estudo, que será publicado por completo na edição de setembro da revista Psychological Science, os homens e as mulheres homossexuais mostraram preferências diferentes das dos homens e mulheres heterossexuais.
"Em particular, os homens homossexuais mostraram diferenças notáveis em relação a lésbicas e homens e mulheres heterossexuais em termos dos cheiros corporais que preferem e de como seus próprios cheiros são percebidos pelos outros grupos", segundo o estudo.
Os homens homossexuais manifestaram uma preferência pelo cheiro de homens homossexuais e mulheres heterossexuais. Mas o cheiro dos homens homossexuais foi o menos preferido pelos homens e mulheres, tanto heterossexuais quanto homossexuais.
Em termos gerais, a preferência esteve relacionada à percepção sobre quão prazeroso ou desagradável poderia ser um cheiro, e não com a intensidade do mesmo, explicaram os pesquisadores.
"Temos que compreender como os mecanismos biológicos responsáveis pela produção do cheiro corporal diferem nestes grupos definidos por gênero e preferência sexual", disse Martins.
Além disso, é necessário identificar os fatores que fazem com que os homens tenham uma percepção dos cheiros diferente da das mulheres e com que essas diferenças também existam entre homossexuais e heterossexuais, acrescentou.
Para terminar, quadrinhos:

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Escrito por Komentarista às 03h45
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Quando consegui finalmente assistir ao filme Saló, de Pasolini, com legendas (já na segunda ou terceira vez, ainda na faculdade) me lembro que saí pesado, chocado, perturbado. Uma dose concentrada de perversões, crueldades, torturas, tornadas muito ‘reais’ na tela. A trilha sonora me deixava ainda mais tenso: não sei se me lembro bem, mas me recordo de um tambor, um ruído meio surdo que percorria todo o filme, acentuando a tensão o tempo todo. Lembro-me muito bem das primeiras cenas, quando os soldados escolhem os jovens para serem levados para o refúgio dos fascistas. Outra cena que me vem à mente é uma do filme Duna, de David Lynch. Na segunda vez que o vi, um pouco mais adulto, percebi um pouco melhor a crueldade de um personagem que tinha severos problemas de pele, sendo constantemente cuidado por um ajudante que usava um aspirador para retirar o muco das suas acnes gigantescas. Na cena em questão, ao fim de um diálogo, o tal personagem literalmente ‘decadente’, podre em todos os sentidos, pede por um jovem rapaz que tem um buraco no coração, tapado apenas com uma espécie de rolha. O monstro então retira a rolha e a cena termina com essa sugestão sádica-sexual. Menciono tais cenas como exemplos de um tema que serve de mote para esse post: representações, neste caso cinematográficas, do 'mal'. Elas são exemplos, parte do meu (limitado) repertório, mas que buscam a meu ver efetivar tal representação. Esse tema aparece sempre na literatura e nas representações a respeito do que foi Hitler e o nazismo. Mas ao contrário do que pode parecer de início, acho que tal associação é enganadora, e até mesmo perigosa. O filme A Queda tange essas questões ao buscar retratar os últimos dias no Bunker de Hitler, no final da II Guerra. Nenhum filme de terror conseguiria, a meu ver, passar um pavor daquela forma, por ser um evento passado há tão pouco tempo num país culturalmente tão próximo do nosso. Diferentemente de Saló o diretor fez uma narrativa realista. Dessa forma o mal aparece como característica “humana, demasiadamente humana”, próximo demais para ser assistida confortavelmente. As cenas que retratam a Sra. Goebbels com seus filhos são lentas, pavorosas, e o diretor não oferece ao espectador nenhuma trégua: força-nos a engolir cada detalhe macabro, que no entanto são fruto de uma mulher extremamente calculista e apaixonada pelo seu Führer. O mal no filme nunca é irracional nem extraterreno. Hitler, se acreditarmos na versão dos fatos que aparece na tela (ela mesmo uma versão cinematográfica de relatos pessoais; sobre versões, ver meu post anterior sobre o filme Herói), foi uma espécie de Calígula do século XX: um idealista que sacrifica seu povo em nome de um ideal de grandeza. “Será mais fácil remover as ruínas do que destruir tudo”, ele diz, aludindo ao fato de que a Alemanha reconstruída poderia ser de fato a expressão do III Reich por ele e outros idealizado. O povo alemão deveria sucumbir, ele brada, por ter sido incapaz de conter os povos do leste. Sua crença cega em idéias de um Darwinismo social o levam, segundo o filme, a uma defesa suicida de Berlim que impediu uma possibilidade terrivelmente provável: a de que os EUA poupassem o regime Nazista como estado-tampão que contivesse o expansionismo soviético. Da mesma forma que Saddam Hussein foi usado como fator de equilíbrio e luta contra o estado islâmico iraniano, com as conseqüências já amplamente conhecidas. Cercado de políticos e militares cegamente leais, Hitler não soube abrir mão de seus ideais e “fazer política”. Sua visão era transcendental, e uma das coisas que mais me impressionou foi ver como a queda desse ideal matava ao mesmo tempo seus seguidores: a cada derrota, a cada aproximação das tropas russas, mais e mais nazistas de alto escalão se suicidavam. Morrer era preferível a ter que suportar um mundo sem o Nacional-Socialismo, segundo eles. Em muitos sentidos A Queda é um retrato importante do quanto o Nazismo foi uma expressão legítima de aspirações culturais e políticas que ressoavam com grande parte da população alemã. Tentativas de ‘demonizar’ o nazismo e Hitler, como se eles fosses excrescências, perdem de vista esse fato: de que Hitler e seu entourage eram completamente humanos. Essa visão do nazismo como Expressão maniqueísta do “mal” acaba por tornar mais nebulosas quaisquer tentativas de compreender o que ocorreu e de pensar maneiras de evitar que coisas assim tornem a se repetir.
Categoria: comentários de filmes
Escrito por Komentarista às 16h36
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Hoje acordei com medo. Já sinto isso há algum tempo, mas há aqueles dias em que os sentimentos afloram com mais facilidade. Talvez o tempo gasto trancado em casa trabalhando ao computador, talvez as noites mal dormidas e recheadas de pesadelos. O medo é basicamente devido a um momento de transições importantes pelo qual estou passando atualmente, tanto emocionais quanto profissionais. As questões emocionais eu explicitei bastante em alguns posts passados, nos quais falava de paixão e decepção; as questões profissionais, bom, essas estão ruins para quase todo mundo, e eu ainda me encontro em posição privilegiada para lidar com isso. Mas o fato de não ter, nesse momento, algumas certezas, alguns portos onde possa me sentir seguro (que antes existiam) me deixam exasperado, ansioso, nervoso, estressado. Com medo em suma. Medo do futuro imediato, medo de não ter como me virar, de não achar nenhum emprego, de não conseguir me adaptar a essa nova situação, do momento de ter que defender a tese e me emancipar desse período de estudante, etc. Fora isso, tenho medo de encontrar alguém, de me apaixonar novamente, de isso atrapalhar minha performance profissional, de me frustrar com uma pessoa que nunca quis estar comigo, como tem acontecido ultimamente. Hoje, refazendo meu currículo pela milésima vez para mandar para outra faculdade que exige um formato que eu ainda não conhecia, revivi alguns momentos interessantes da minha trajetória profissional, lembrando-me das pessoas que conheci, dos envolvimentos que tive, dos sonhos que nutri, das conquistas que pareciam impossíveis e hoje fazem parte da minha história. Percebi que hoje vivo uma situação bastante familiar: a de ter que recomeçar, de ter que me readaptar a um novo lugar no mundo, de ter que reinventar minha personalidade e ocupar um novo espaço. A ansiedade, acompanhada de uma dose de empolgação pelo novo que pode vir a ser: essa combinação me acompanha a cada nova viagem, a cada novo projeto, a cada nova investida. A frustração de um sonho, ou de muitos, causa uma desilusão, mas abre caminho para tantos outros! Fácil escrever isso, mas quando se vive o momento da frustração, da readaptação, é difícil ver o lado bom lá na frente. “Você ainda vai rir disso tudo”, me disse meu pai hoje ao telefone. Confio nisso, mas hoje eu não consigo; como respondi a ele, “então me deixa rir depois que tudo passar!”. Um amigo meu me disse que a análise é uma boa maneira de reinventar-se; eu, pessimista, acho que somente buscamos mudar algo em nós mesmos quando somos obrigados a isso pelas circunstâncias. Conheço tantas pessoas que fazem anos de análise e, no entanto, são tão boçais quanto qualquer um de nós fudidos que nunca pisamos em um consultório; a diferença é que esses analisados profissionais conseguem elaborar discursos maravilhosos sobre seus dilemas e suas limitações. Quanto a fazer algo a respeito, isso é outro papo... Não sou contra análise, veja bem! Sou contra as pessoas ficarem me dizendo “vá fazer análise” a qualquer indício de infelicidade ou frustração que eu demonstre. Adoraria fazer, mas tudo tem sua hora, e não existe fórmula mágica para tudo; eu ainda acredito que a vida tem que ser sentida, e coisas como Prozac e análise são perigosas quando usadas como droga recreativa ou como assunto a ser conversado ad infinitum nos botecos da vida. Eu ainda não tenho certeza de que consigo me reinventar, mas percebo, por exemplo, a importância de se ter amigos, de se abrir para eles. Parece banal, mas é muito mais difícil (para mim pelo menos) buscar curtir os pequenos prazeres cotidianos, mesmo em momentos ruins, do que parecia ser a princípio. Na vida nunca temos certezas absolutas: parece ser essa a lição desse meu “retorno de saturno”; ou eu me adapto a isso e aprendo a curtir as pequenas certezas, ou vou quebrar a cabeça de tanto bater na parede.
Categoria: confissões
Escrito por Komentarista às 19h20
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A verdade e o sexo
Como já tenho feito em vários posts, acabo usando algum evento ou filme para discorrer sobre um tema ou idéia que acho interessante. O evento em questão hoje foi o filme Kinsey, que toca em uma série de questões relacionadas ao sexoe sua relação com a sociedade. Um excelente filme, que me interessou mais pela abordagem narrativa com a qual trata do pesquisador que dá título ao filme do que por qualquer outra coisa. Poucas vezes tive a chance de ver, num produto cultural massificado, uma abordagem tão sensível e inteligente de questões ligadas à sexualidade nos seus aspectos científicos e sócio-políticos. Ao narrar a trajetória do Professor Kinsey o filme faz ao mesmo tempo um comentário sobre a forma como a sociedade norte-americana encara a sua sexualidade nos anos 40 e 50, que por tabela é um comentário sobre o puritanismo sexual da sociedade americana atualmente. O puritanismo sexual é o protagonista do filme, ao lado de um personagem que de biólogo e zoólogo se transforma em militante contra a hipocrisia sexual (pelo menos na forma como o personagem aparece na história). Mas esses elementos são o conteúdo usual das críticas do filme que circulam na mídia. O que me interessa comentar aqui é a forma como o filme consegue construir uma visão do conceito de dispositivo da sexualidade, parte central do pensamento do filósofo Michel Foucault. Grosseiramente falando, esse conceito analisa a forma como a ciência do sexo na sociedade ocidental participa da construção de verdades a respeito das pessoas. A partir de um certo momento, como analisa Foucault, a verdade sobre o sexo torna-se a essência fundamental da verdade sobre o indivíduo, sobre o que ela é e o que dá sentido à sua vida. A psicanálise, por exemplo, nasce exatamente nesse registro: nossa relação com o sexo determina nossos desejos, nossas personalidades, nossos conflitos. Kinsey, ao efetivar uma tipologia cientificamente acurada do comportamento sexual real dos americanos, ao mesmo tempo confirma esse dispositivo (afinal os seus questionários são rituais de confissão sexual muito parecidos com os analisados por Foucault) e causa um repensar a respeito da forma pela qual nomeamos e organizamos socialmente as práticas sexuais. Um dos resultados mais interessantes dessas pesquisas foi o conceito elaborado por Kinsey para tipificar cientificamente a sexualidade, até hoje bastante revolucionário e mal digerido pela ciência, que é a de um gradiente de sexualidade, baseado nas práticas reais e não no desejo manifesto ou em categorias sociais pré-existentes. Variando de 1 a 6 (1 sendo alguém exclusivamente heterossexual e 6 sendo exclusivamente homossexual), esse gradiente subverte a noção de que temos práticas sexuais regradas de acordo com as nossas categorias sociais usuais. Se existem tantas pessoas cujo comportamento sexual está em desacordo com uma polaridade hetero/homo, para pegar o exemplo mais polêmico, qual o sentido dessas categorias? Nesse ponto vemos o quanto o saber (ou a ciência, ou as formas pelas quais as sociedades constroem suas verdades) é politicamente importante e potencialmente explosivodependendo da forma como ele é mobilizado; especialmente quando entra em desacordo a estruturas de poder existentes. Algumas cenas me tocaram de forma especial. Uma delas é quando um homossexual revela as marcas de queimaduras impostas pelos irmãos quando ele foi descoberto com outro rapaz. A outra foi quando o pai de Kinsey revela o “tratamento” que lhe foi imposto para que parasse de se masturbar. Torturas que têm como objetivo marcar no corpo, inscrever na carne, tornar efetivas e tangíveis as normas e os valores sociais. Normas que afetam a nós todos, homo/hetero/bissexuais, e todas as outras categorias existentes. Fico pensando nas histórias íntimas de tantos de nós, que sofremos em algum momento violências parecidas, a fim de que pudéssemos nos encaixar em padrões (ainda que em desacordo com as nossas convicções e desejos íntimos). Essas pequenas (ou grandes) violências vão depois determinar de forma bastante importante nosso estar no mundo: seja reunindo energias para negar nossos impulsos, seja para curar feridas do passado, seja para tolerar o desprezo da sociedade quando decidimos viver mais de acordo com nossas vontades. A forma pela qual lidamos com a nossa verdade sobre o sexo determina grande parte das nossas vidas, dos papéis que podemos exercer na sociedade e as formas pelas quais somos autorizados a nos relacionar uns com os outros. Para os homossexuais, praticantes de uma forma de sexualidade tida como desviante e degenerada, reservam-se guetos geralmente associados à prática livre do sexo e à ausência de morais como família e comunidade. Esse gueto sexualmente poluído serve como contraponto (ao mesmo tempo odiado e tolerado, como a prostituição) à sexualidade “normal”: heterossexual e voltada para o casamento e à família. Dificilmente conseguimos dissociar, pelo menos no pensamento dominante, homossexuais de "libertinagem sexual". Da mesma forma os heterossexuais são muitas vezes forçados por essas normas a vivenciar uma sexualidade restrita e voltada à reprodução. O filme, nesse aspecto, foi inovador ao revelar a violência a que somos todos submetidos (ainda que de forma totalmente desigual, obviamente).
Escrito por Komentarista às 03h51
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