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Aventuras na blogosfera
Passeando pelo ciberespaço encontrei uma campanha irresistível, e resolvi colocar aqui. Recebi emails pedindo para usar roupas pretas em protesto também, deve estar se espalhando por aí.

Para quem curte blogs de notícias, o do Tiago Dória é interessante, vou adicionar nos meus links.
Escrito por Komentarista às 12h38
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Herói (Zhang Zimou)
Muito já se escreveu a respeito dessa superprodução chinesa que encena, como li numa crítica, uma fábula a respeito da criação do estado chinês. Eu poderia falar sobre muitas coisas aqui; afinal o filme é estupendo, visualmente estonteante, complexo, repleto de conflitos e paixões, etc. etc. Mas farei aqui uma leitura totalmente direcionada, num estilo ‘perspectivista’ que tenho cultivado comigo mesmo, e repleta de pretensões analíticas que para muitos podem parecer exageradas. Não me acanho, porém, ante esse tipo de acusação. Gostaria de me remeter a uma cena chave, a fim de limitar a leitura ao máximo. Na cena em questão o guerreiro Espada Quebrada, numa luta contra Sem Nome, ao invés de lutar usa a espada como pincel e escreve na areia dois ideogramas: minha terra. Ali vejo a chave para uma interpretação possível do filme como um debate a respeito da verdade (um tema que me interessa demais e há muito tempo*): da criação da verdade, da construção de realidades a partir de ações e palavras. A espada é arma usada para cortar e ferir. Ao mesmo tempo é arma de construção de idéias, da mesma forma que o pincel ao ser usado na escrita. Ao ser usada como pincel a espada encena essa noção de que a realidade é construída, seja por atos de guerra ou de vontade (vontade de poder, de novo). A questão da verdade é debatida no filme não somente quando a história busca comentar a vontade de unificar a China, mas aparece como parte da construção narrativa do filme de certo modo. Quando Sem Nome, em sua conversa com o rei de Qin, relata a forma como derrotou os inimigos do reino, as cenas são mostradas em cores bem definidas (vermelho, nesse primeiro instante). Quando o rei discorda da versão de Sem Nome, oferecendo sua própria leitura dos fatos, as cenas são carregadas de azuis. Quando por fim Sem Nome, ante a perspicácia do rei, reconta os fatos sob outra ótica, tons de branco são usados preponderantemente. Como se cada cor denotasse uma versão diferenciada, recurso narrativo nada misterioso. Mas aí eu direciono o leitor/espectador: qual teria sido a verdade? Qual foi efetivamente o verdadeiro desenrolar dos acontecimentos? Além do próprio conflito de idéias entre Sem Nome e o Rei, têm-se efetivamente acesso a qualquer verdade? Seriam as versões meramente isso, nada além de versões manipuladas e mobilizadas para os fins de cada um? Desse ponto narrativo eu volto ao tema do filme, o da unificação do império chinês. Seria o filme um instrumento ufanista e nacionalista do estado comunista chinês? Estaríamos ante um novo sino-imperialismo cultural? De que formas o filme poderia ser mobilizado na glorificação das origens da civilização chinesa? Estaria o diretor, sub-repticiamente, alertando-nos para exatamente isso, para o uso e abuso de versões dos fatos? Qual teria sido a verdadeira origem do império? Será que teremos algum dia como saber? Não seriam mais centrais para a análise os conflitos que dão origem a cada versão? Quando a espada corta a areia e escreve ‘minha terra’, temos aí como que uma metáfora visual da construção sangrenta do império, que além de uma extensão de território e um estado, é uma poderosa idéia. A idéia de um povo unificado, como nos ideais do rei de Qin, traz em si embutida a idéia de paz. Como é dito no final do filme por Sem Nome, o ideal maior do guerreiro é abandonar a espada.
*[Refiro os leitores ao post sobre o filme Alexandre de Oliver Stone para uma discussão conceitual semelhante, além do post anterior sobre Godard].
Escrito por Komentarista às 00h36
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Mais Godard novamente
Para aliviar um pouco o clima pesado dos últimos posts, aqui vai um texto da fase heróica desse blog, fase que infelizmente eu apaguei num surto irracional. Perdi alguns textos muito legais daquela fase, mas alguns eu guardei, como esse sobre o filme Passion de Godard. Escrevi sobre filmes aqui com certa regularidade, mas não consegui fazer algo como uma coluna semanal ou coisa assim, como até pensei em fazer; a vida anda complicada para mim ultimamente. Esse texto é de uma fase na qual eu estava descobrindo o Godard e a análise de cinema em geral, e foi um período bastante fértil em termos de reflexões. Foi logo também quando começaram as sessões Comodoro, e preciso mencionar que escrevi sobre o filme Cannibal Holocaust, mas perdi o texto (era esse que eu de fato gostaria de ressucitar). Mas aí vai o Godard:
"Estava em casa semana passada, sem muito o que fazer, visita do meu irmão, quando recebo um email chamando para uma pré-estréia de um filme de Godard no Espaço Unibanco, Passion, começando as 20:00 e com debate posterior com o Prof. Ismail Xavier. Não conhecia o filme, mas já animado com meus últimos encontros com Godard, fui e assisti ao filme. O debate depois, ou melhor, a fala de Xavier foi uma aula de cinema, e me deu outra perspectiva da forma de encarar os filmes deste diretor, que tanto me irritava antes.
Um exemplo foi quando, no meio da fala de Xavier, a gente começa a escutar uma voz no fundo da sala do cinema. Olho pra trás (assim como metade do público) e vemos um cara conversando meio alto ao celular, indo para o cinema. Todo mundo fica meio puto, achando inconveniente e tudo mais, mas o Ismail nos chama atenção para a situação chamando aquilo de um momento Godardiano. Como assim, pensei? Ele diz que naquele momento, quando ele estava lá falando, ele estava fazendo as vezes de uma tela de cinema, buscando passar um discurso, uma mensagem, prender nossa atenção, nos fazer acreditar naquilo que ele dizia. O cara conversando ao celular, ao quebrar aquela situação fechada, onde a platéia ouve passivamente as palavras da pessoa ao microfone, quebra também essa ilusão de realidade criada pelo mecanismo platéia/palco (aqui já sou eu falando, interpretando).
O tema da fala dele em relação a Godard foi todo esse: as técnicas usadas por Godard para criticar e desconstruir essa ilusão cinematográfica. Por exemplo, quando logo no começo do filme ele mostra um céu bem azul, uma música muito envolvente, sugerindo ascensão, o divino, um avião voa à distância no céu deixando atrás de si uma trilha de fumaça. Logo depois cenas desconexas começam a aparecer. Mas desconexas em relação àquela ilusão primeira, àquela alusão primeira feita pelo cineasta a clichês do discurso cinematográfico. Seria o tal realismo narrativo, tão usado pelos filmes de Hollywood por exemplo. Em Godard, segundo a fala do Ismail, haveria uma busca de contrapor-se a esse discurso realista, buscando quebrar uma ilusão que na verdade mascara relações de poder, formas sociais de constituição do discurso, etc. Como numa cena onde uma operária, numa discussão com um diretor de cinema (personagem da “história”), pergunta a ele porque os filmes não mostram as condições dentro das fábricas, a forma como os trabalhadores trabalham, etc. Bem próximo das temáticas do Vento do Leste (que seria segundo algumas críticas que li, uma espécie de manual de como fazer cinema crítico, marxista, maoísta).
Numa outra cena, temos três espaços num mesmo enquadramento: a câmera está situada num cômodo fora de onde a ação ocorre, uma conversa entre a operária e o diretor de cinema de novo. Há uma janela que dá visão para a rua, portanto cria-se um terceiro espaço, uma terceira dimensão dentro do mesmo enquadramento. Enquanto câmera observa voyeurísticamente a conversa dos dois, meio que parafraseando o lugar da câmera na narrativa realista em geral, do lado de fora um amigo do cineasta fica constantemente batendo no vidro da janela, numa busca irritante de interromper a conversa dos dois. Num primeiro momento eu me irritei bastante pensando “mas por que o diretor ficaria tanto tempo mostrando uma conversa, uma discussão um tanto amorosa entre os dois, tendo um cara chato do lado de fora enchendo o saco? Por que eles não abrem a janela? Por que continuam conversando? Por que essa cena demora tanto?”. Esse é o tipo de cena aparentemente nonsense que compõe o filme. Na explicação de Ismail Xavier, temos aí a própria essência do discurso de Godard, que busca atuar por meio das técnicas cinematográficas na direção de desvelar o “ilusionismo” que fundamenta essa forma de arte. Pois o cara que fica batendo na janela seria como o cara conversando ao celular: ele interrompe nosso engajamento com a situação em pauta, no caso da cena, uma conversa de um casal. Ou seja, estamos tentando engatar o mecanismo de entrar na ilusão criada pelo cinema, e o cara batendo na janela insiste em atrapalhar esse engajamento. Para Ismail Xavier, nesse caso Godard quer deixar claro seu intuito de contrapor-se a esses discursos, mostrando um discurso contra-intuitivo, numa busca de tornar aparentes os mecanismos do cinema. Segundo Xavier, Passion (de 1979) é o primeiro da trilogia que encerra-se com Je vous salut Marie (que não vi). Saí de lá inebriado e emocionado, de poder ter participado daquilo tudo... Vale lembrar que o Ozualdo Candeias (ele não trabalhou com o Mojica, na época? Fazia filmes da boca do lixo?) estava lá, e quiseram que ele comentasse um pouco o filme e o que ele achou. Ele não falou muito, mas disse que não tinha um discurso tão planejado como o de Godard, apesar de gostar dos filmes do francês. Ele filmava o que achava que deveria ser filmado."
Escrito por Komentarista às 16h56
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O fascismo nosso de cada dia
Eu queria escrever um texto no qual falaria o quanto odeio os papinhos a respeito de "gays efeminados" e "gays discretos". Eu queria dizer o quanto odeio pessoas enrustidas emocionalmente, que recusam a sua sensibilidade (não confundir com feminilidade) e, por conta disso, querem matar essa característica no outro. Eu queria escrever um texto dizendo o quanto fica óbvio, no ódio de alguns desses caras "não efeminados" contra o que eles chamam de "bichas efeminadas" (entre tantos outros termos depreciatórios) o seu feminino recalcado. Recalcado pois eles querem mais do que tudo estar de 4 sendo enrabados por um "hétero"; como esse desejo implicaria revelar para si esse mesmo feminino recalcado (revelando o quanto se parecem com as travecas e bichas-loucas que tanto criticam, mesmo que seja somente nesse único ponto), eles bancam os discretos (ainda que procurem os tais héteros à noite em seus carros, na pegação, longe de seus amigos e namorados "discretos"). Mas não conseguem esconder nada quando espumam ao desclassificar os tais "pintosos". Eu queria escrever contando meu ódio pelo fato de, ao tentar escapar desse tipo de preconceito por parte da sociedade em geral, eu tenha que apesar de tudo reencontrá-lo no seio daqueles que deveriam se apoiar mutuamente, mesmo que apenas em sentimento. Não escrevo por falta de tempo, energia e por considerar esse meu ódio algo íntimo e pessoal, que obviamente seria desclassificado como um delírio de uma bicha efeminada, solitária, mal-amada. Ao invés disso, e sob pena de ser confundido com um militante cor-de-rosa, publico uma nota interessante do site www.mixbrasil.com.br:
| :: Israel: Gays vítimas do nazismo ganham novo memorial |
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Um novo memorial de Israel apresenta uma exposição dedicada a gays e lésbicas que foram vítimas do Holocausto. O Museu de Yad Vashem abriu oficialmente as portas nesta terça-feira, 15/3, em Jerusalém.
A homenagem a homossexuais não estava nos planos originais. Há alguns meses quando o museu ainda estava em construção, Sa´ar Netanel, membro da Prefeitura de Jerusalém, visitou a construção do museu que homenageia os 10 milhões de judeus mortos pelos nazistas. Netanel afirmou na ocasião que ficou surpreso ao ver que o museu não mencionava gays e lésbicas e comunicou o fato ao diretor.
“O povo judeu tem a obrigação moral de relembrar todas as vítimas da Segunda Guerra Mundial”, disse Netanel. “O Estado de Israel deve ser o primeiro país no mundo a mencionar todas as vítimas”, disse.
Na Itália, na Alemanha e em São Francisco, nos Estados Unidos, já há monumentos que homenageiam homossexuais vítimas do nazismo. Estima-se que de 5 a 15 mil gays foram presos em campos de concentração durante a 2ª Guerra Mundial, muitos dos quais foram mortos em câmaras de gás. |
Escrito por Komentarista às 10h55
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Insano, mongol, fraco da cabeça, alcoólatra, neurótico, pervertido sexual

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958: |
Family-stock of a woman sterilized by the state of Maine |
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Date: |
Circa 1935 |
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Source: |
The Harry H. Laughlin Papers, Truman State University, Lantern Slides, IBM Box,Box 10 |
Escrito por Komentarista às 03h32
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Esterilização compulsória de seres humanos na Califórnia, 1934

Efeitos da esterilização eugênica tal como praticada na Califórnia. [Human Betterment Foundation, 1934]
Escrito por Komentarista às 03h29
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The world we live in

A primeira coisa que pensei ao ver os quadrinhos acima foi na realidade dos EUA contemporâneo, onde um governo de extrema-direita, militarista e expansionista busca a todo custo, no bom estilo Berlusconi, controlar e manipular a produção de informações a fim de criar um estado permanente de medo na população. Esse medo daria a legitimidade para ações como a invasão de países do Oriente Médio e a revisão de direitos fundamentais. Bom, mas há aí um outro debate associado, e que me interessa um pouco mais: a da forma como recebemos informações sobre o mundo, e as conseqüências disso nas nossas posturas e percepções cotidianas sobre o dia-a-dia na política, para citar um exemplo importante. Pois essas percepções cotidianas muitas vezes são decisivas para definir o clima que elege esse ou outro candidato. Quem captura a nossa imaginação, e como? E qual o papel da informação nisso? Por quais filtros passa essa informação, e no que isso acarreta?
Escrito por Komentarista às 03h17
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Ação vs. inação
Acho que o melhor prozac que eu poderia ter tomado foi começar a enfrentar alguns problemas meus. Começar a dar passos na direção certa alivia tantas neuras que a felicidade decorrente é inebriante, ainda que pequena e num contexto de bastante stress. Tendências à depressão e à imobilidade me são bastante familiares, assim como acessos de fuga; mas da mesma forma tenho sempre alguns impulsos a enfrentar as situações-problema, que me levaram a mudar minha vida completamente várias vezes. Ainda acho que fazer algumas merdas é essencial para que, com a cara devidamente quebrada, tenhamos condições de aprender lições, que se ficassem só na teoria ou no racional não fariam nenhum sentido. Me conforta ter o meu currículo bastante recheado desse tipo de coisa, ainda mais quando vejo pessoas bem mais capazes, maduras e inteligentes do que eu sofrendo com coisas às vezes bastante banais. Não há nada mais gostoso do que agir no mundo, e poucas coisas desesperam tanto quanto uma sensação difusa de incapacidade, de ausência de possibilidades de ação. Mesmo que essa incapacidade seja uma fantasia que inventamos para nós mesmos. Ontem conversando com um amigo, aluno de psicologia, ele mencionou um termo que eu achei o o máximo: aproximações sucessivas. Quando a tarefa parece enorme demais, ou a trava que nos segura parece muito forte, podemos tentar, ao invés da ansiedade paralisadora, buscar aproximações sucessivas, tentativas repetidas de resolução daquilo. Como eu disse num post passado, algumas coisas se atrofiam quando não são usadas, e precisamos exercitá-las para que funcionem melhor. Isso não acontece de uma hora para outra. Mas quando percebo que consegui mover alguma trava minha, ainda que só um pouco, fico quase eufórico.
Escrito por Komentarista às 07h59
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