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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos [komentarista@uol.com.br]



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O Komentarista
 

A Má Educação (parte 2)

O cineasta, para mim o verdadeiro protagonista da história, representa uma estabilidade e maturidade na vivência dos desejos que sugere saídas não trágicas, algo extremamente positivo para um filme que lida com questões gays, mas sem recorrer a soluções simplistas como a morte dos protagonistas no final (tantos filmes falam disso, como se o amor entre homens fosse sempre necessariamente trágico), ou apelar para uma celebração pura de idéias rasas que fazem parte de uma certa comunidade gay hegemônica (transe o quanto puder, gaste muito dinheiro, viva em função da beleza de seu corpo, afinal somos gays, não temos acesso à vida sentimental-afetiva plena que os héteros tem, mas temos o monopólio do sexo livre e do hedonismo). É um bálsamo mental perceber que temos, ainda mais depois de um Festival Mix totalmente decepcionante, imagens para nosso imaginário que trazem tanta complexidade e maturidade para nossa experiência, sendo gays num mundo que mal começa a nos aceitar, onde ainda não nos aceitamos nós mesmos como legítimos seres que merecem estar vivos.

            Ao mesmo tempo o cineasta é Almodóvar ele mesmo. Preso num bloqueio criativo no qual as soluções estéticas tradicionais não funcionam mais, ele acha um novo caminho na sua própria história de vida. O processo criativo do cineasta começava, pelo que vimos, pelo colecionar de imagens absurdas e bizarras que pudessem render uma boa história (sinalizando seus primeiros filmes), mas esse método não estava lhe rendendo frutos. Esse bloqueio acaba quando ele se reencontra com sua própria história de vida. A Má Educação, a meu ver, é exatamente esse filme, é um Almodóvar falando diretamente da vida, nada rocambolesco, falando de sentimentos e vivências que são absurdas de uma forma completamente realista, por que a vida é absurda, às vezes mais do que qualquer situação surreal. O absurdo que foi toda a experiência do colégio e as tragédias que dali decorrem, mais complicadas do que qualquer novela mexicana que ele pudesse imaginar. Linda foi a cena dos meninos indo ao cinema, quando aparentemente Almodóvar revela uma das fontes de sua poética visual: A parte quando vemos o filme que os meninos assistem (me esqueci o nome), e na qual uma ex-freira, usando uma roupa escandalosamente colorida (roxa?), num contraste gritante com as vestes negras das irmãs, pede para retornar ao convento e é recusada. A cena é muito marcante tanto pelo seu visual (pensemos nos exageros de cor e forma que sempre marcam todos os filmes de Almodóvar) quanto pela temática, do marginal em confronto com a instituição (igreja) e sua hipocrisia; pois a freira diz "não é Deus que te recusa, sou eu".

            O absurdo da experiência humana é de fato o tema privilegiado de Almodóvar, e nesse aspecto esse é sim mais um filme com a grife do diretor. Mas a forma direta e clara com que aborda uma experiência de vida, seu tom quase documental, a melancolia que aplaca em muito o humor, isso para mim são quebras fundamentais que esse filme estabelece em relação aos outros. Como no filme, talvez o cineasta quisesse fechar um ciclo, entrar em contato consigo mesmo, enfrentar fantasmas a fim de continuar a caminhada.



Escrito por Komentarista às 14h10
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A Má Educação (parte 1)

Vi esse filme no domingo (hoje é terça), e pensei em fazer uma pequena resenha para esse blog, numa proposta pessoal que tenho de dar mais espaço a esse tipo de texto aqui, quase como uma coluna semanal. Como uma espécie de hobby meu, além de um exercício de pensamento para pensar mais o cinema e a arte (algo que tem a ver com minhas escolhas profissionais futuras). Mas saí do filme abalado, comovido, sem palavras, um tanto triste e melancólico, e só queria naquele momento não ficar sozinho de jeito nenhum. Acabei indo numa casa noturna, a Loca, que era o último lugar no qual eu queria estar num momento sensível daqueles. Mas é onde estava um amigo que eu tinha certeza que me escutaria, e foi o que aconteceu. Depois de alguns minutos de pesados desabafos com ele, e depois da chegada de uma outra amiga com excelente astral, até consegui entender melhor a situação e a coisa boa de não ter ido pra casa. Mas enfim, hoje consegui perceber melhor alguns pontos a respeito dos quais eu gostaria de escrever, pensando o filme e seu impacto, para além das coisas que ele trouxe para mim (muito pessoais talvez para um espaço como esse).

            Fiquei pensando na quebra que me pareceu esse filme com os outros que eu vi desse diretor. Por mais que muitos amigos meus comentassem que nesse filme, Almodóvar volta ao seu estilo mais antigo, de personagens absurdos e histórias mirabolantes, rocambolescas, paixões desenfreadas e viradas estonteantes no enredo. Tudo isso havia lá: o menino sensível que, violentado física e emocionalmente por um padre, carrega além disso a dor de ter perdido um grande amor de infância e torna-se travesti e drogado; o padre que se apaixona por um menino de voz angelical e disputa o mesmo com outro menino da sua escola; o colega desse menino-objeto-de-desejo que se envolve amorosamente com ele e tenta disputar o mesmo com o padre, e acaba sendo expulso da escola; o irmão do menino/travesti, que além de ter ajudado a matar o menino com a ajuda do padre (agora tornado seu amante), se faz passar por ele na busca de avançar sua carreira de ator.

            A quebra é brutal quando percebemos o quanto esse filme nada tem de exagerado ou fantasioso, ao menos na forma como esses elementos apareciam nos primeiros filmes. Naqueles, me parece que a fantasia buscava falar, metaforicamente e de forma exagerada, a respeito de temas como a ignorância, os preconceitos sociais, a hipocrisia das instituições, o absurdo da vida que se recusa a encaixar-se em nossos estreitos quadros de pensamento. Mas em A Má Educação, me parece que Almodóvar se deu conta de que não precisaria fazer uma história fantástica (no sentido de irreal, surreal) para usar esses elementos; eles caberiam muito bem numa história perfeitamente realista, verossímil, aliás extremamente comum e banal quase. Infelizmente, pois ainda vivemos num mundo onde o desejo por outro homem geralmente implica numa vida marcada por traumas e violências dos tipos retratados no filme. Um desejo que se inicia comumente com um, ou vários, traumas violentos e que geralmente tende à tragédia auto-imposta, ou à falsidade sem escrúpulos, trajetória representada pela díade dos irmãos. Um não consegue lidar com sua sensibilidade e escorrega para a sarjeta, representada pelas drogas, a vida de travesti (marginal, errado em todos os sentidos por recusar a masculinidade e recusar as regras de convivência mais gerais); o outro não consegue viver de forma honesta seus desejos e usa todos que cruzam seu caminho. A desculpa para a sua falsidade (e seu homicídio) é exatamente o fato dele não querer ser afetado (contaminado) pelo escândalo que seu irmão havia se tornado, coisas que escutamos tanto da boca de tantos e tantos gays como se fosse a coisa mais banal.



Escrito por Komentarista às 14h10
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Infância e ser adulto

Estava vendo hoje televisão e durante uma reportagem sobre uma escola que fazia uma noitada como forma de ritual, comemorando a passagem dos alunos para o colegial, um dos alunos falava que os tempos de escola deveriam ser os melhores da nossa vida, e por isso mesmo ele curtia muito a tal festa. Bom, isso sempre me toca muito por que lembro o quanto eu pastei socialmente falando e emocionalmente falando nos tempos de escola. Aliás, sinto que minha vida só começou de fato aos 17, depois que passei para a faculdade e comecei a ter amigos, a trocar com outras pessoas, a aceitar o sexo como algo possivelmente gostoso e saudável, e a melhorar tantas outras neuras, algumas das quais caminham comigo até hoje. Dái fiquei pensando que alguma vantagem pessoas como eu, que começam a curtir a vida (leia-se, a estressar menos com as coisas e ter prazer com a vida mais do que preocupação) mais tarde, é a de que temos talvez uma vida útil ainda no futuro. Ou seja, eu posso olhar pra frente e ver o quanto eu ainda tenho que melhorar minha vida emocionalmente falando, curtir mais e estressar menos, a ter mais amigos, a ser mais humano, etc. Enquanto outras pessoas que talvez tenham tido os melhores tempos de suas vidas na infância e nos seus 20 e poucos, possam querer ficar amargos pensando que o passado é sempre melhor. Meus pais falam coisas nesse sentido de vez em quando (mas acho que isso foi antes do divórcio, daí tinha até motivo). Melhor é quando a pessoa já nasce pronta e bem resolvida, curte as coisas na sua hora certa e, ao virar adulto, curte MUITO mais. Ainda não conheci ninguém assim, mas pensar que o porvir vai  ser melhor do que tantas coisas que passei lá atrás me deixa mais calmo e confiante. Quem viu o último do Almodóvar e se identificou de alguma forma com alguns dos personagens talvez entenda mais ainda as coisas que quero passar aqui.

Escrito por Komentarista às 12h47
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Contra o nihilismo, a vontade do nada

[...]

Atenção

Tudo é perigoso

tudo é divino maravilhoso

Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

[...]



Escrito por Komentarista às 01h05
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Olhando para ele

Olhei para ele e pude claramente discernir aspectos da sua aura, como um fogo queimando ao redor de sua cabeça. Seus cabelos eram cacheados, de um castanho escuro e emolduravam uma face delicada. Seu gênero parecia por vezes indefinido, mas algo de masculino exalava de seu corpo, como uma leve fumaça quando a chuva cai sobre o chão num dia bem quente. Como um calor esse seu aspecto masculino brotava dele, de sua delicadeza, e me chamava para perto. Olhei para meu braço, e percebi um corte um tanto profundo no pulso. Um córrego pequeno mas levemente caudaloso de sangue escorria e pingava no chão de pedra. Eu estava descalço. Sentia um líquido quente envolver meus pés, e imaginei estar sentindo meu sangue ali, quem sabe um pouco de chuva ou urina. Olhei de novo para ele, mas não estava mais tão perto. Virou de costas e caminhava para outra direção, um caminho que eu não conhecia. O sangue parou de escorrer e o corte se fechou. Olhei para o céu, as nuvens estavam se movendo, e uma luz podia ser vista, um quadro maravilhoso do infinito pintado de brancos, cinzas, alaranjados, cor-de-rosa e azuis. Sentia uma dor no braço, e me sentei por um instante, a refletir, e pude ver minha própria aura, queimando como um fogo, uma neblina colorida ao redor de minhas mãos.

Escrito por Komentarista às 19h36
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Mais um post babaca e sem imaginação

Tipo assim...

eu + eu = 2eu

eu x eu = eu ao quadrado

eu x eu x eu = eu ao cubo (pô, eu queria inserir os símbolos mas nem rola no UOL)

eu / outro = y

eu / eu = 1

eu x 0 = [ohm]

eu = eu

eu - y = tédio talvez?

2eu = tédio

3eu = um nego muito chato

eu - eu = [ohm]



Escrito por Komentarista às 10h56
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Fotos bizarras que chegam no meu email



Escrito por Komentarista às 00h55
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Amor, sexo, paixão, amizade

Ontem passei algumas horas agradáveis conversando com um ex casinho meu, um ator. Meu primeiro homem foi um ator, isso em 1993, e nunca havia antes voltado a esse metié, até conhecê-lo. Lembro-me que quando conheci esse rapaz, senti uma enorme química sexual e sentimental. Poder-se-ia dizer que "me apaixonei" logo de cara por ele, sentimento que não foi recíproco (sim essa experiência tem se repetido bastante em minha vida; deve ser castigo pelo que fiz com o E. M.). Ele também sentia uma química sexual e emocional até, e na época quis manter comigo uma "amizade colorida" como se diz por aí. Eu até tentei, mas como eu estava muito mais envolvido, isso me fez mal e eu me senti obrigado a me afastar dele, cortar relações. Peguei birra por assim dizer. Mas sempre respeitei o fato dele nunca ter me dito que queria me namorar: ele sempre foi aberto e honesto a respeito dos seus sentimentos, e nunca me deixou acreditar nada além dos fatos: ele curtia conversar e transar, mas não queria envolvimento sério. Por isso mesmo, quando o reencontrei por acaso há algum tempo, já passada a efervescência daquele momento inicial, percebi que guardo um enorme carinho por ele, além de respeito, o que me permite ter hoje esses momentos legais de papo descompromissado e aberto.

O leitor atento, porém impaciente, pensaria "mas é claro que você sempre leva foras, veja só! Você se apaixona toda hora, estimado K., as pessoas vêem em você um leviano, um carente, um dependente emocional! Você precisa se conter mais, viver menos de fantasias, jogar o jogo de forma diferente."

Peço paciência enquanto tento formular uma resposta adequada: de fato tenho tido vários episódios de "paixão", e que na maioria das vezes (não todas, preciso dizer) foram muito mais fantasias que vivi sozinho do que qualquer outra coisa. Mas quero me defender da acusação de leviano: pois separo muito bem esse tipo de "apaixonite" que acomete os corações solitários quando encontram um ser que aparentemente cabe em muitas (quando não todas) as suas mais profundas fantasias, do tipo de amor duradouro e nada leviano que reservamos somente a pessoas muito especiais. Talvez eu fantasie muito com algumas pessoas logo no começo, o que pode passar uma impressão negativa de mim como um carente e emocionalmente dependente. Mas penso que em todos esses episódios eu deixei fluir um sentimento que me faz muito bem, que é gostar, que é sentir um enorme potencial na pessoa, querer estar junto, transar muito, etc. O AMOR viria, caso acontecesse, com muitos ANOS de convivência, na qual as pessoas, trocando idéias e experiências, construíssem para si uma ligação mais forte que essa inicial "apaixonite" (para não usar esse termo pesado "paixão). AMOR de verdade eu tive e tenho, especialmente por aqueles pouquíssimos amigos que levarei comigo a vida inteira. Por essa razão não me considero leviano; pois se eu não me abro para gostar da pessoa no início, se escondo ou abafo meu gostar logo de cara, de que forma vou conseguir construir algo mais duradouro, que combine tesão com AMOR (me pergunto se isso é possível de fato)? Jogando jogos, fingindo não estar nem aí, penso que isso destrói mais do que constrói. Esse jogo preserva a sua integridade e sua estabilidade, isso com certeza. Socialmente pega muito bem também. Mas acho que não é isso exatamente o que procuro para mim. Como disse para esse meu ex ontem: se o cara vê em mim um leviano, mas ainda assim fica próximo, discute comigo, aí eu vejo um cara interessado, mesmo que discordando. Assim como ele fez: foi honesto, não me deu motivos para me iludir. Só saí de perto pois ele insistia em transar comigo mesmo querendo só amizade. Mas um cara que sai correndo ao primeiro sinal de interesse meu, bom, esse realmente não está interessado em nada, e o melhor é que ele suma mesmo de perto.



Escrito por Komentarista às 11h18
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Babbling

Olhou para o céu estrelado e viu o infinito, a escuridão, pontilhada de luzes em padrões misteriosos. Rastros de estrelas cadentes arranhavam a perfeição daquela superfície lisa, negra. Sentia-se querendo flutuar em direção àquela imensidão, mas permanecia ali, grudado ao chão. Sentia a grama levemente molhada de encontro aos seus pés, uma carícia. O canto dos grilos era ensurdecedor, o silêncio maltratava seu aparelho auditivo. Mas não havia um silêncio propriamente e sim uma cacafonia de barulhos, e ele não conseguia distinguir o que eram, de onde vinham. Escuridão à sua frente, a lua era nova. Aos poucos ele desistiu de andar e sentou-se ali mesmo. Começou a se sentir UM com tudo à sua volta, queria sentir-se UM com aquilo tudo, mesmo que os bichos lhe picassem, que as moscas lhe incomodassem, que a grama lhe cortasse a sola dos pés descalços. Tentou engolir o infinito do céu, e aquilo tudo acima lhe dava medo; um medo misturado com encanto, com esperança. Seu ouvido direito captou um alvoroço em algum lugar da escuridão. Algo se mexia, as folhas balançavam, gravetos se rompiam sob o peso de pés (?) desconhecido, patas, mãos talvez. Virou seu pescoço naquela direção e nada viu. E nada escutou. Olhou de novo para o infinito a tempo de ver mais uma estrela caindo nesse nosso planeta, sua trajetória descrita em fogo, uma morte que acendia, mesmo que num breve instante, a tristeza profunda daquilo tudo.

Escrito por Komentarista às 16h28
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Estava lendo isso agora...

E achei legal colocar aqui (sem mais análises, por hoje):

"Não! Poucos homens são dotados da faculdade de ver; há ainda menos homens que possuem a capacidade de exprimir. Agora, à hora em que outros estão dormindo, ele está curvado sobre sua mesa, lançando sobre uma folha de papel o mesmo olhar que há pouco dirigia às coisas, lutando com seu lápis, sua pena, seu pincel, lançando água do copo até o teto, limpando a pena na camisa, apressando, violento, ativo, como se temesse que as imagens lhe escapassem, belicoso, mas sozinho e debatendo-se consigo mesmo. E as coisas renascem no papel, naturais e, mais do que naturais, belas; mais do que belas, singulares e dotadas de uma vida entusiasta como a alma do autor. A fantasmagoria foi extraída da natureza. Todos os materiais atravancados na memória classificam-se, ordenam-se, harmonizam-se e sofrem essa idealização forçada que é o resultado de uma percepção infantil, isto é, de uma percepção aguda, mágica à força de ser ingênua!"

[extraído de BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, pgs. 23-24]

 



Escrito por Komentarista às 13h19
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Gafe no festival Mix Brasil de cinema

A primeira gafe foi eu ter perdido a estréia do Entreatos, um documentário sobre os momentos finais da campanha vitoriosa do Lula à presidência em 2002, para assistir ao Hot Men Cool Boyz... Criou-se um hype em torno do filme (é da produtora do Lars Von Trier!; eu mesmo repetia isso sempre para todos), eu vi os trailers disponíveis na internet e achei lindo o visual, enfim, achei melhor assistir, pois o do Lula entra em cartaz depois... Achei bem fraco, ainda mais depois de ter visto o Raspberry Reich, outro filme de porno-arte (esse sim mais ARTE) super sexy e hiper bem feito. O visual é interessante (do Hot Boys), mas é repetitivo, monótono, e mesmo as cenas de sexo não são lá muito sexies. Eu sou fã de cenas de sexo grupal, e eles perderam de fazer uma ótima cena de uma orgia romana; saiu super insossa no filme, e quase nem parecia orgia. A de SM foi média, as outras todas lentas. Tinha um cara hiper passivo que rendeu boas trepadas (adoro cenas de caras bem ativos comendo caras bem passivos). Ah, quase me esqueço da segunda gafe, desta vez da organização do festival: quando o filme começou (era um DVD sendo exibido em telão de cinema), percebo que eles colocaram a versão com comentários do diretor (nunca entendi o porquê de colocar isso em DVDs, acho um tédio). Ninguém da platéia falava nada, eu fiquei desesperado, levantei e fui falar com o Tiago Grandeza (acho que o nome é esse), o fortinho que apresenta os filmes sempre. Enfim, aí sim eles acertaram o áudio. Estranho estar no Espaço Unibanco, com a platéia 99,99% gay, assistindo um pornô gay... Tinha flashes na minha cabeça de cinemões que já conheci no centrão; isso sim foi uma experiência interessante de borrar fronteiras (mas não fui no banheiro conferir a pegação que parecia estar rolando).

Escrito por Komentarista às 00h05
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Eu amo o Laerte

Eu to tentando não postar tantas imagens, porque fica lerdo para carregar a página (pelo menos pros discados como eu), mas eu vi essa tirinha hoje no jornal e quis colocar aqui. Para mim o Laerte, especialmente na série Piratas do Tietê e Overman, chega bem perto de expressar coisas geniais. Não só pelo humor das tiras, a inteligência com a qual ele tira piadas de situações completamente absurdas, mas pela exploração mesmo desse absurdo a ponto da gente não entender onde o humor foi parar, e dar risada somente pela bizarria do negócio. Pelo menos pra mim foi assim. Essa tirinha é um exemplo ótimo: o humor está lá, mas muito mais forte é o absurdo e uma mistura louca de referências aparentemente sem nexo nenhum prévio. Bastante surrealista (sim, eu amo surrealismo e dadaísmo quase tanto quanto eu amo anos 1960 e a cor roxa). Pode parecer forçar a barra ficar comparando Laerte com Surrealismo e Dada, mas acho que analisar cultura popular não difere nem é menos importante do que analisar "high art", erudita. Nessa tira em particular (retirada de uma série com temas parecidos) eu amei a forma como ele brinca com as relações e os tiques de um certo século XIX abstrato, um cientificismo estranho e as referências ao corpo destruído. Me lembro de uma série de tirinhas, as mais abstratas que eu vi dele, sobre um casal estranho de caras, que dormiam juntos, um era artista e o outro era meio crianção, parecia um casal "gay", passando pelas situações mais ilógicas. Bom, mais uma dica cultural de coisas que eu gosto...



Escrito por Komentarista às 12h46
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Os héteros também amam

Hoje fiquei sabendo de mais desdobramentos de um fim de namoro muito chato de um amigo meu. A sua namorada, que nunca havia esquecido um ex dela de vários anos (portanto sempre deixou esse meu amigo super inseguro quanto ao engajamento dela na história toda), decidiu que não tinha esquecido o cara, e partiu pra Joinville junto com ele, depois de terminar o caso com o F., esse meu amigo. Esse mesmo amigo que ficou ao lado dela enquanto ela estava cheia de dúvidas a respeito do que fazer da vida, do que ela queria, que investiu pesado no sentimento (por que ele quis óbvio). O mesmo amigo que ao me contar essa história dele, me animou a não chutar o balde quando meu último namoro começou a desandar, vários meses atrás, antes mesmo de começar direito. Fico sofrendo um pouco junto com ele, e pensando nessa coisa de investir... Sei que ando meio gélido ultimamente, sem acreditar em sentimentos, e sei que é fase (a qual eu quero que passe bem rápido), mas fico pensando na atitude dele... Será que ele não deveria ter jogado mais duro com ela? Será que ela merecia aquele crédito todo, pra depois fazer isso com ele? Se ela quebrar a cara com o ex e vier correndo atrás desse meu amigo (como fez um outro amigo meu hétero, o M., que ao levar um não da ex de 6 anos voltou correndo pra pessoa que ele sempre desprezara mas que investiu tudo nele), será que ele deveria dar uma chance a ela? No final, não existe certo nem errado eu acho: afinal cada caso será sempre único. Mas na falta do que pensar e na preguiça de fazer qualquer coisa hoje com essa chuva chata, fiquei mirabolando isso na minha cabeça... Afinal tem que mudar o post de vez em quando né.

Escrito por Komentarista às 23h17
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Bruce LaBruce de novo

CARALHO! Fui ver o site do diretor do filme The Raspberry Reich [www.brucelabruce.com], daí deixei um comment no blog dele, e ainda mandei um email perguntando a respeito de umas referências que ele teria usado no filme. Ele respondeu hoje, e eu estava na direção certa, ele ainda me deu algumas dicas de filmes e livros que ele usou! Não só Vento do Leste, mas La Chinoise e Weekend do Godard, além de um tal de Dusav Makavejev, que quero conhecer. Vou reproduzir um texto que eu tirei do site que explica melhor sobre o que o filme trata (desculpem gente, quando eu gosto, eu gosto, corro atrás, quero saber mais, etc...). Detalhe: Ontem tentei ver o pornô da produtora do Lars von Trier (Hot Men Cool Boyz), e TODAS as sessões estavam lotadas desde as 16 horas... Gente, que isso!

[trechos a seguir retirados do site www.theraspberryreich.com]

"The Raspberry Reich is a film about „radical chic“, specifically the phenomenon of the modern left in Germany adopting the signifiers and postures of extreme left wing movements of the seventies, particuarly the Red Army Faction, also known as the Baader-Meinhof Gang. The movie starts off with the abduction by a gang of bumbling, would-be terrorists of Patrick, a young man who is the son of one of the wealthiest bankers in Germany."

[...]

"In The Raspberry Reich, Gudrun initiates the sexual dynamic between the heterosexual males who idolize her; she recognizes the innate radical potential of homosexual expression and attempts to manipulate it towards her revolutionary ends. The fact that she is constantly quoting Reich and Marcuse is no coincidence: the RAF and other radical movements of the seventies believed in the sexually revolutionary ideals of these post-Freudian thinkers, and fought against all forms of sexual repression and the constraints of gender. (One of Gudrun’s favourite slogans is „Heterosexuality is the Opiate of the Masses!“) It is essential that my film engage these notions with sexually explicit content, for in this way it mirrors all the sexual ambivalence and ambiguities of the radical movements that emerged in the sixties which are now being revived in art and fashion, but which could soon become a new social and political force in modern culture. "



Escrito por Komentarista às 12h34
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The Raspberry Reich [um filme de Bruce LaBruce]

Ontem vi esse filme, do diretor Bruce la Bruce, no festival Mix de cinema aqui em São Paulo. Não sei se sou só eu, mas fico com tesão físico quando vejo coisas que, mesmo mentalmente, me dão intenso prazer estético e intelectual. Misturo sempre essas bolas, corpo e idéias, tesão físico e mental, sexo com palavras e conceitos. Quando vi o filme do Godard, Vento do Leste, fiquei tão movido pelas idéias, pela forma como ele falou e mostrou a relação entre cinema e realidade, entre revolução e cinema, que meus neurônios "intelectualóides" se misturaram com os mais "tesudos" e me causaram um prazer mais intenso do que a média de quando eu vejo um filme muito bom. Menciono o Vento do Leste especificamente pois penso que o Bruce la Bruce o usou como fonte de inspiração (ou pelo menos alguns filmes muito parecidos com ele). Em Raspberry Reich, um grupo militante terrorista seqüestra o filho de um industrial alemão como forma de cobrar resgate e assim financiar atividades revolucionárias, e chamar a atenção da sociedade para a sua luta. Mas o grupo é bastante sui generis, liderado por uma mulher que acredita no fim da homossexualidade e da heterossexualidade, ambas contra-revolucionárias, e que busca no sexo uma forma de ampliar a revolução contra o capitalismo. O diretor usou e abusou de textos e bordões dos anos 60 e 70 na composição da atmosfera visual do filme, e freqüentemente, mesmo durante as cenas de sexo explícito, os personagens recitam, gritam e declamam frases longas e complicadíssimas a respeito do proletariado, do fim da burguesia, etc. Aliás o brilhantismo do filme foi exatamente nessa composição visual. Sei que sou suspeito, pois sou fã incondicional de tudo que seja anos 60, e portanto eu já estava predisposto a ter tesão quando ele usa ângulos de câmera típicos dos filmes dessa época, e usa filmes militantes como fonte de inspiração. Mas há um teor de novidade, como quando ele faz cenas de sexo hiper criativas (nos cortes e nos movimentos) onde os personagens transam tendo como pano de fundo fotografias em tamanho gigante de Che Guevara, por exemplo. Eu já vi vários pornôs dos anos 60 e 70, onde eles parodiam o movimento feminista por exemplo (que podem ter inspirado o diretor também), mas nesse filme parece que Bruce la Bruce mistura esses pornôs com os filmes "sérios" da época, criando algo novo. Tinha orgasmos visuais quando textos em um roxo (essa cor mexe comigo) ao mesmo tempo brilhante e levemente transparente passavam pela tela, com textos marxistas, enquanto os caras se chupavam e se beijavam, em nome da revolução. Raramente tenho essa graça, a de ter em um filme tantos elementos que me dão prazer e saí do filme literalmente drogado de tesão (as cenas de sexo ajudaram óbvio). Hoje acordei, repensei a parte política, que realmente é meio rala e usada como pastiche e não como Godard fazia, como parte do conceito mesmo do filme. Mas enfim, não deixa de ser uma obra com pretensões maiores do que ser somente bem-feito, e é ótimo para pensar. E gozar.



Escrito por Komentarista às 16h46
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Esse Ruben Bolling é genial...

[retirado do site Salon.com]



Escrito por Komentarista às 12h35
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Nada como o sol de manhã, nada como a água no rosto, nada como o som daquela música...

Nada como uma bossa nova no rádio pra tornar uma faxina a coisa mais chique do dia... E nada como acordar lá pelas 9 da manhã e sentir o sol na pele pra te deixar um pouco mais animado pra enfrentar o resto do dia... Nada como lavar a roupa na mão, com sabão de côco e balde, pra te lembrar as coisas chatas que muita gente faz por profissão, e que a sua falta de grana te obriga a fazer você mesmo... Nada como a fome pós-faxina pra deixar aquele sanduíche insosso que você come todo dia de almoço uma graça divina... Nada como tentar colocar as coisas nos trilhos para você perceber o quão fora elas estavam!

Escrito por Komentarista às 12h15
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Nada como o tempo

Nada como o tempo para esfriar os ânimos e curar as feridas, nada como o tempo para clarear as respostas e focar os sentimentos. Escrevendo os últimos posts, andei pensando nas inevitabilidades da vida e de como sofremos por não aceitá-las. Algumas coisas são o que são, e não há como mudá-las, nem muito porquê. Logo eu, que tenho por profissão compreender a perspectiva do "outro", tenho enormes dificuldades em fazê-lo quando se trata da minha vida cotidiana. Pois o que para uns é covardia, para outros é sabedoria e comedimento. O que para uns é honestidade e engajamento, para outros é puro desequilíbrio e agressão, afronta gratuita. Nos sentimentos, como na vida, conflitos são inevitáveis: nem sempre a visão de um lado corresponde à visão do outro lado. Utópico o mundo onde não existem batalhas e confrontos (pensando em Nietzsche), e ao mesmo tempo, saber sair fora da luta quando ela já está resolvida é também interessante. Guerras ocorrem por conta de diferentes visões de mundo. Ao mesmo tempo, há situações nas quais não podemos simplesmente nos furtar de dar nossa opinião. Ou seria correto, por exemplo, ser "compreensível" com Hitler e aceitar suas pulsões expansionistas? Ou durante o regime militar brasileiro, deveríamos acatar que a maioria da população do país é TFP mesmo e viver tranqüilos aceitando a censura, a tortura e tudo mais? Quando se trata de relacionamentos, a coisa funciona de forma parecida: ninguém é obrigado a pensar como o parceiro, e ao mesmo tempo somente a própria pessoa consegue, quando quer, mudar sua opinião sobre isso ou aquilo. Quando não há um encontro de almas, ou uma vontade de estar juntos, não há nada que se possa fazer para mudar isso, não há argumento lógico nem raciocínio brilhante o suficiente para mudar as pulsões e os desejos de uma pessoa. Eles não devem mesmo ser mudados, o que devemos é, percebida a incompatibilidade, sair de cena de forma adulta e serena e continuar vivendo nossas pulsões. Diferentemente de uma guerra, onde as questões são de vida e morte, na vida podemos mudar de amigos e de namorados quando as coisas não funcionam. Acredito piamente que relacionamentos não são para todo mundo. A vida não é uma sucessão de fases fixas pelas quais passamos, e achar "alguém" simplesmente não é uma coisa que vai acontecer com todos. E tudo bem, a vida é o que é, e o mais importante do que estar com alguém, arrumar "marido" ou namorar é ser feliz e viver a vida da forma que te deixe o mais feliz possível. Isso implica em viver suas fantasias e seus ideais, confrontá-los com a realidade, confirmá-los ou mudá-los, viver esse fluxo é o mais importante a meu ver (vide Heráclito) do que forçar a vida a caber num molde que nos foi imposto por esta ou aquela tradição. Se está no destino ou nas estrelas, não há como saber. O que acho certo é que não podemos (não devemos, nessa ética que proponho aqui) impor nada a ninguém; e um relacionamento, se ele porventura acontecer na vida de alguém, será algo bom e válido se ele for um caminhar junto, um passeio voluntário de almas e não uma imposição ou uma relação de dominação, onde um tenta forçar o outro a estar ali. Quando eu estive do lado dominado, simplesmente traía, ou terminava. Mas me pego às vezes querendo forçar a vida a caber em padrões que inventei pra mim. Claro, ninguém é de ferro e queremos às vezes brigar com a realidade. Tudo leva tempo para acontecer, até mesmo essa tomada de consciência. O importante nessas horas é talvez parar e repensar o que te deixa feliz, avaliar o quanto você investe em coisas fora do seu caminho. Procurar sua turma num sentido teórico mais amplo. Sua turma cósmica, as almas que te deixam mais felizes e que te querem perto (para um "cientista" eu falo muito em cosmos e almas, mas tudo bem). Nada como o tempo para esfriar os ânimos e curar as feridas, nada como o tempo para clarear as respostas e focar os sentimentos.

Escrito por Komentarista às 14h36
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Por que tantas confissões

Pensando bem, nos últimos tempos, é a eterna questão de achar a sua turma, algo muito simples mas que na prática é bem complicado, acho que é por aí. Por que se expor tanto? Por que não, por outro lado? Qual o mistério todo afinal? Eu não saberia imitar outros blogs que falam tudo meio em código ou que se limitam a pensamentos mais abstratos, ainda que muito pessoais. Sei que me falta calibrar muito essa exposição e o tanto que eu falo de mim e das minhas intimidades, mas enfim, só vou aprender fazendo eu acho, e interagindo.

Escrito por Komentarista às 13h17
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Novo cinema brasileiro

Nina está beijando uma garota loira, magra, enquanto paquera com os olhos famintos um cara igualmente magro e vestido de preto que dança perto do Dj. Ela exala tesão e suor. Logo se separa da menina e segue o rapaz, que entra num banheiro. Ela entra com ele, fecha a porta e eles começam um beijo nervoso e acalorado. Ela tira com avidez a camisa do rapaz e começa a lamber-lhe o corpo. De repente pára e comenta:

"Desculpa cara, não vai rolar..." [diálogo aproximado]

"Por quê?"

"Não dá pra ficar com um cara com essa porra tatuada aí." [close da câmera numa tatuagem de um smurf beeem azul no peito do rapaz].

Ela sai e volta a desenhar no meio da festa.

Essa cena foi uma das que eu vou me lembrar melhor, mas não to citando aqui o excelente trabalho visual com os desenhos do Mutarelli (vinhetas da agência Lobo, que eu acho que faz publicidade mas pelo jeito fazem muito mais), a transição, nas cenas de desvario de Nina, para uma estética meio Lynchiana, o excelente trabalho da atriz que faz Dona Eulália, etc. etc... Por favor, vejam esse filme! Valorizem trabalhos legais como esse, que tentam levar a cultura de massas a um nível ligeiramente mais interessante! Leiam Dostoievski, pois eu não li, e me contem se é legal mesmo a adaptação!

Ah, não posso esquecer a cena do strip-tease que a Nina faz para o cego no apartamento dele... Certamente uma das mais legais que eu vi em filmes esse ano pelo menos, a atriz está perfeita, a música idem. Enfim, ótima pedida. Queria comentar Contra Todos também, nessa mesma linha de filmes nacionais muito bons, mas fica aqui dada a dica de outro filme que eu gostei muito. [tá bom, eu não quero mais ser balconista do Mac nem vendedor de butique de roupas...]



Escrito por Komentarista às 21h15
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Processos

Engraçado como os processos se repetem na vida e na internet. Andei lendo o Pierre Lévy, e para ele o ciberespaço se configura como nova possibilidade de formar comunidades, mas desta vez liberando o tempo-espaço dos processos de configuração de memória. Ou seja, as pessoas conseguem se reunir, trocar idéias, criar fatos e memórias coletivas sem necessariamente se encontrarem, ou estarem juntas no mesmo tempo ou espaço. Um blog, ou uma rede de blogs, efetiva exatamente isso, através dos comentários, dos posts, do processo de leitura e releitura que cada um efetiva nos blogs dos amigos. Fatos são vividos e lembrados, experiências trocadas, e cada blog se configura como que numa subjetividade única e distinta. Isso daria pano pra manga, mas vou guardar pra falar disso com meus alunos. Um processo que eu queria comentar é o de vidas pessoais ligados a blogs. Por exemplo, no meu caso, a trajetória recente de criar, apagar, recriar e matar blogs. Há uma associação direta com fatos vividos dentro e fora da internet, há uma tentativa explícita de se relacionar com as pessoas, ou pela mesma via, criar limites a relacionamentos. Assim como na vida real, entre pessoas, travamos contatos, buscamos ampliá-los ou repelí-los, a depender das dinâmicas dentro do grupo. Fico pensando na minha dificuldade de me relacionar com as pessoas (que é comum a muitas pessoas creio), e como isso se reflete na "vida social" do meu blog, desde que andei me engajando nesse tipo de troca cyber-social. Anunciamos, coisas, voltamos atrás, depois tentamos confirmar, idas e vindas num devir constante. Retomando esse blog, tento retomar efetivamente uma rotina anterior ao seu apagamento, e vejo o quanto esse processo é difícil e complicado, pois minha vida não é mais a mesma (ainda que por pouco) do que era antes. Ou seja, nessa reedição, tudo fica necessariamente um pouco diferente graças às coisas que passei nessa interseção entre a vida real e a internet. Pouco conclusivo, mas chamemos esse post de um passo tentativo em direção a alguma coisa que eu não sei direito o que é ainda...

Escrito por Komentarista às 08h59
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Cinema, artes marciais e a coreografia dos sentimentos (parte II)

Parte II

Chego afinal no livro Neuromancer, que inspirou a série Matrix, e na questão da superação de si. No livro de William Gibson (e nos filmes Matrix) temos referências como as artes marciais, as lutas, o cinema chinês, o pensamento Zen, a superação da matéria. Bom, antes de continuar, quero mencionar a cena em Kill Bill 2, que me deu a idéia de escrever sobre isso tudo, na qual Uma Thurman, presa em um caixão, relembra seu treinamento com um mestre chinês em artes marciais. A principal lição que vemos ali é a superação de si, que levaria à superação dos limites normalmente impostos pela matéria. "A madeira deve temer sua mão, e não o contrário", diz o mestre. Ou seja, os limites aparentes são relativos, podemos pela superação, pela concentração e pelo treinamento, superar esses limites, realizando feitos antes tidos como impossíveis, como por exemplo conseguir atravessar vários centímetros de madeira com um soco. O pensamento oriental, ao sugerir essa superação Zen do eu e da matéria, questiona a filosofia ocidental, presa à rigidez da matéria e à matemática, ao racional (assim sugere a leitura que coloco aqui, podemos debater se é por aí mesmo). Isso me lembrou uma cena de Matrix I, na qual Neo observa, antes de se consultar pela primeira vez com o Oráculo, meninos meditando e entortando colheres de metal. Os limites da matéria, a rigidez do metal, são 'dobradas' pela força da concentração. Mas a série Matrix explica essa superação de uma forma científica e 'ocidental': o Zen, a superação dos limites do real acontece por que o real é de fato uma ilusão criada pelas máquinas, a realidade de fato existe, está em Zion, e por isso voltamos a Platão e à alegoria da caverna (física e metafísica).

            Divagações filosóficas à parte, quero me voltar à figura do mestre em artes marciais. Um ser solitário, pois é um iniciado e uma exceção à maioria, que acredita nos limites aparentes. Uma Thurman, para se iniciar nos mistérios do mestre chinês, precisa se retirar do mundo e do convívio social, ficar isolada, e questionar todos os limites que geralmente seu pensamento lhe impõe. Essa figura do mestre me fascina, por todas essas características e nas coisas que me faz pensar a respeito da vida. Ou seja, essa solidão que surge a partir do momento em que o mestre decide que vale mais a pena questionar as verdades aparentes, o senso comum, do que conviver com pessoas 'comuns' e compartilhar das suas verdades e "banalidades". Logo no início de Kill Bill 2 temos esse dilema: A personagem de Uma Thurman decide abandonar sua vida de mestre (e marginal, fora da lei) e embarca numa ilusão mundana de um casamento utópico, numa cidade isolada, onde todas as referências da vida estão ali dadas, tudo é mais simples e as coisas são por que são. Mas a fuga é ilusória também, pois Bill a encontra e seu sonho acaba em tragédia. Fico pensando nas minhas decisões de vida, na forma como escolhemos viver a vida e encarar as coisas: devemos questionar o senso comum e embarcar na aventura de buscar outras realidades e outras referências, sob pena de nos isolarmos do resto do mundo e das pessoas? Ou devemos aceitar o mundo tal qual ele se apresenta a nós, sem questionamento, e viver assim o prazer de estarmos encaixados no mundo, de sermos partes de um todo harmônico?

            Lendo alguns blogs de amigos a respeito de aceitação me lembrei dos momentos iniciais da minha vida, que sempre me jogaram na cara o quanto eu NÃO fazia parte do mundo tal qual ele estava posto para a maioria: o dia que contei para meus irmãos que meu pau ficava duro quando eu assistia a dois homens lutando, fui zombado até não poder mais, fui chamado de bicha e gay e etc. etc., e comecei a perceber que nunca faria parte desse mundo efetivamente. Eu tinha a opção de bancar a ilusão, ou de buscar outros caminhos mais 'reais' para mim. Assim como Neo teve a opção alegórica de tomar a pílula azul ou a vermelha: permanecer na ilusão da Matrix ou enfrentar os perigos e delícias de um mundo incerto onde as pessoas se mostram tal qual são de verdade e encaram as conseqüências disso, para o bem ou para o mal. Sempre que tentei viver a ilusão, alguma coisa se encarregava de me jogar na cara o quanto eu não fazia parte daquilo. Ser gay é, no nosso mundo, sempre uma experiência traumática, pela ausência de referências do gay como algo normal e desejável. Nenhuma mãe que eu conheça, mesmo aquelas que são super simpatizantes e adoram seus amigos gays, criam seus filhos com a esperança de que virem gays. Então, já que nunca tive a escolha de me esconder, nunca consegui ter amigos heteros ou fazer parte de algum estilo de vida enrustido (por pura incapacidade de esconder mesmo), sempre fui forçado a encarar meu lado diferente. Primeiro eu abafei, me enfurnei em livros, me apaguei. Hoje em dia tento me mostrar mais, correndo sempre o risco de alienar pessoas que me achem efeminado, pintoso, gay demais, etc. etc. Nossas escolhas levam a conseqüências, e cabe a nós escolhermos quais as que desejamos para nós. Infelizmente (ou não), eu nunca tive muita escolha: sempre fui do tipo escancarado, e acho que minha saúde mental agradece quando eu não tento abafar isso. Isso afasta muita gente, mesmo gays? Com certeza, mas é o preço que pago. A esperança é encontrar um Bill que me aceite da forma que sou, que curta jogar o jogo num nível fora do banal, e que aceite o fato de que nunca conseguimos de fato fazer parte da Matrix. A solidão é ruim, mas seria ela pior do que uma vida de mentiras?

 

[peço perdão ao leitor que esperava um papo sobre cinema e filosofia, mas devido a acontecimentos na minha vida pessoal, o post descambou para uma confissão, para um comentário sobre o mundo gay, para minha vida pessoal. Não me acho mais iniciado que outros, só digo que tenho menos capacidade de me adequar ao cotidiano do que outros. Por isso tenho menos opções, sou meio que forçado, quando decido ser eu mesmo, a ser algo diferente, esquisito, fora do padrão aceitável, às vezes do respeitável. Com a idade tenho visto que a vida é curta, e deve ser vivida, e é mais gostoso ser eu mesmo, ainda que eu tenha muito mais problemas de convivência, mas não acho correto impor minha visão de mundo aos outros, cada um vive a vida do jeito que quer e com as armas que possui ou consegue no decorrer.]



Escrito por Komentarista às 15h31
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Cinema, artes marciais e a coreografia dos sentimentos (parte I)

 

            Desde que vi o remake do Planeta dos Macacos, comecei a pensar nesses filmes que encenam grandes guerras, batalhas, confrontos entre exércitos e entre grandes guerreiros. Eu adorei aquele filme, não só pelos toques filosóficos que o novo diretor colocou, mas também pela forma como conflitos entre idéias e comportamentos foram encenados a partir de grandes batalhas. Acho que dos filmes que vi que usou esse tipo de recurso, foi o primeiro que me disse alguma coisa a mais. Nas cenas como aquela na qual a profecia sobre o retorno do criador é materializada pelo pouso de uma nave com um macaco de laboratório dentro, temos um excelente debate a respeito de como nossas idéias de redenção por um deus ou uma força superior, nossas crenças em seres metafísicos e forças divinas acabam por se materializar pela força mesmo das nossas ações (que em seu turno são direcionadas por essas crenças). Ou seja, o dilema de idéias é encenado na história: as forças divinas existem e direcionam os acontecimentos de forma a confirmar as previsões e profecias (que são assim 'verdade divina')? Ou são nossas ações, direcionadas por crenças em deuses e profecias que acabam por criar situações nas quais essas mesmas se confirmam? Dilema que para mim é insolúvel, e portanto não deve ser levado a ferro e fogo.

Quando vi O Tigre e o Dragão, percebi o quanto pode ser bela uma cena de luta, mesmo tendo a duração de vários minutos e sendo bastante violenta. Nesse filme eu li cada luta como um embate emocional entre as pessoas, entre as forças e personalidades de cada personagem. Minhas interpretações anteriores desses filmes eram muito presas na questão da violência: filmes "de luta" são chatos por que são pura violência, não têm idéias ou histórias interessantes, são mero pretexto para mostrar sangue e socos e etc. Mas não é nada disso, cada luta é na verdade uma dança, uma coreografia, que encena as relações entre as personagens. Amizades, amores, lutas entre pupilos e mestres, entre campos opostos de uma mesma questão, entre irmãos que se tornam inimigos mortais, etc. etc. Ou seja, as lutas são a encenação da própria vida, são uma forma visual de pensar as relações e conflitos que compõe a vida e seu desenrolar. A beleza desse tipo de filme para mim, a partir dali, foi se definindo nessa forma. Tendo reformulado minha forma de pensar esse tipo de filme, consegui curtir os dois volumes de Kill Bill de uma forma muito mais interessante. Pois o que ele fez ali, a meu ver, foi uma apropriação de um certo conjunto de estéticas para falar de conflitos fundamentais ao ser humano: amor, ódio, vingança, companheirismo, nascimento e morte. A vingança de Bill, motivada por uma paixão, detona o ódio e desejo de morte na personagem de Uma Thurman, que assim faz movimentar uma série de eventos que dão forma ao filme. Nada mais simples, mundano, banal, e nada mais belo, grandioso e fundamental. Os amores e ódios humanos são os mesmos, estejamos em Nova York, São Paulo, Juiz de Fora ou Itapecirica da Serra; são os mesmos entre pessoas letradas, entre faxineiros, no interior de castelos ou de favelas, entre os mais boçais 'boyzinhos' e entre os mais descolados designers e publicitários. Todos sentimos tesão, amor, ódio, desprezo, e por isso mesmo tais sentimentos, que são o combustível da vida, são universais e sempre fazem sentido. Mudam os cenários, as línguas, as roupas, as armas usadas nas batalhas, mas a essência do humano de alguma forma permanece. Tarantino por exemplo, fiel a certas referências que formaram seu gosto, sempre faz menção a filmes de Kung Fu, ao cinema Chinês, aos anos 70 ("blacksploitation" movies entre outros) e ao Western. O Western é o paralelo Norte-Americano do filme de Kung Fu, poder-se-ia pensar, por ser também a encenação de conflitos fundamentais do ser humano na forma de duelos, de lutas em saloons, e de conflitos entre brancos e índios. Toco nesses assuntos de forma resumida, afinal de contas isso é um blog e não uma tese, mas queria ao menos registrar o rascunho de algumas idéias.

 

 



Escrito por Komentarista às 15h30
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